09 junho 2011

A Pista para Telouèt ou o Espírito do Viajante

  


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Partir de Ouarzazate de manhã não muito cedo numa ansiedade pelo que falta percorrer dos 220 km desta etapa, demoradamente visitar os sítios que nos prendem, permanecer nos corações dos que nos acolherão e que a muito custo lá nos permitirão novamente partir… é o que se impõe!

Já na saída daquela que é uma verdadeira Rosa dos Ventos de onde se parte ou de todo o lado se chega, passa-se defronte dos famosos CLA Studios, não desta vez para uma visita que o tempo urge. Lawrence of Arabia, Tea in Sahara, Black Hawk Down, Kundum, Gladiator, Cleopatra, The Mummy, Alexander the Great, Kingdom of Heaven, Sahara, Troy, Hidalgo ou Babel são alguns dos filmes aqui rodados por cineastas como David Lean, Bernardo Bertolucci, Martin Scorsese, Ridley Scott ou Oliver Stone.

Marrocos20101018#0003 [JMB]Avistar ainda na distância o ksar de Âït Ben Haddou – Património da Humanidade da UNESCO desde 1987 – provoca um silêncio apenas interrompido pelo roncar do motor e pelo vento entrando pelas janelas. Aquele que há-de ser visitado por dentro – depois de atravessado a pé o leito do Assif Mellah – ergue-se diante dos nossos olhos esbugalhados, a cerca de 1.300 m de altitude, sendo este ksar uma obra fantástica de tijolos de terra ocre fabricados numa praceta ao ar livre, dispostos e acomodados numa geometria perfeita. Ruelas íngremes e estreitas de casinhas ainda habitadas por poucas famílias e lojas de artesãos, num autêntico cenário cinematográfico. Encruzilhada estratégica das rotas das caravanas que ligavam os mercados do norte com Tombouctou [ou Timbuktu], no Mali, a mais de três mil quilómetros para sul. Também aqui foram rodados dezenas de filmes, alguns dos quais atrás referidos.

Verdadeiramente aqui começa  a pista que nos levará até ksar Telouèt num percurso em direcção a noroeste, rota pontuada por inúmeros ksour [plural de ksar, povoação fortificada] abandonados no declínio seguinte à 2ª Guerra Mundial por esses berberes parcialmente independentes do Rei Mohammed V – os glaouis. Desenrolada por entre as cotas dos 1.250 m e os 1.800 m, menos de 50 km de terra batida que um dia destes se cobrirá do prometido mas indesejado asfalto.

Começamos então por atacá-la não pela ponte de ferro de engenharia militar mas, contornando-a, passando o rio a vau, para seguidamente nos apercebermos das obras de manutenção, rectificação, alargamento e alisamento daquela que permanece sendo uma das mais perigosas pistas do Reino. Curva após curva e curva após recta, segue-se ao longo dum rio serpenteado emudecendo de verde o ocre das colinas adjacentes até à junção com um outro – o Assif Ounila – numa paisagem absolutamente estonteante de beleza em que a luxúria do ainda verde luta com o já vermelho da terra em que um sol tanta vez impiedoso lateja nos pedregulhos das bermas. É quase asfixiante e um deslumbramento tal que os quilómetros correm, digo passeiam vagarosamente, demoradamente por nós que é preciso tudo absorver e gravar nas nossas mentes mais do que nas câmaras de vídeo ou fotográficas. Ao correr do tempo, do rio e de curva após curva, curva após recta… e o verde dos campos cultivados de sobrevivências e palmeirais ocultando o pulsar de vidas simples.

É ao chegar junto da escola de Tamakouchte, após uma curva apertada e logo uma recta que os corações se dilatando, abrem-se definitivamente rendidos aos gritos e tropelias das crianças. Não as mesmas de outros anos, outras de tão iguais, sedentas de afectos, lindas! Crianças e adolescentes acercam-se da viatura parada e de motor surdo para nos engolir ávidas. Na multidão destaca-se aquela que haveria de se chamar Fatma, muito risonha, mulher pobre e mãe de onze filhos. Distribuímos algumas lembranças e sacos de roupas mantendo o material escolar dentro do carro porque a escola está fechada e, avaliando o seu aspecto interior, assim deverá continuar...

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Mas não, o professor chega pelas 13h, diz-nos categoricamente Fatma. Se teremos de esperar cerca de hora e meia ela faz um chá e nos convida a visitar a sua casa, nas imediações. Que não que maçada, não queremos incomodar e ainda temos muita pista pela frente, retorquimos sem sucesso. Completamente rodeados, absorvidos com a distribuição, decidimos então que iríamos mas apenas eu e a Fátima que os outros dois, o Manel e a Isabel, esperariam junto do jipe, até porque a diarreia da véspera não os deixava muito confortáveis. Fátima e Fatma ao descobrirem o mesmo nome tornam-se cúmplices através de uma espécie de cordão invisível em que os nomes se manifestando as revelam mais íntimas. Era uma humilde casa berbere com o chão em cimento semi-coberto com mantas e algumas almofadas. Uma mesinha baixa e umas tantas cadeiras de plástico à volta era mobiliário suficiente. Uma televisão que duvido funcionar, muitas flores de plástico em volta e pela parede acima constituíam num canto uma espécie de altar de gosto kitch europeu ou centro de reunião familiar.

Pão, manteiga, duas grandes pedras de açúcar não-refinado, amêndoas e chá foram servidos num cerimonial de ajeitar o lenço da cabeça de Fatma, de compenetrada postura – seriedade pelo serviço como se de um ritual se tratasse… A seguir aos rituais do chá – devolvendo-os ao lugar a que pertencem que este é um lugar de dádivas e trocas sinceras de um povo para o qual o étranger, logo infiél, ainda assim um ser humano respeitado, contrariando em absoluto o maniqueismo das teses  fundamentalistas – a alegria na luz difusa, as bocas cheias de sorrisos neste lugar onde se trocam os afectos por outros ainda e sempre maiores numa espiral de generosidade e pertença. Desfiam-se conversas circunstanciais num francês perfeitamente perceptível que apenas o patriarca fala dialecto. Alguns dos filhos estavam connosco e Fatma sempre muito orgulhosa de sua família e de altivez berbere fez questão que olhássemos e lêssemos o Livro de Família, uma espécie de cédula familiar com todos os nomes, parentescos, datas de nascimento, etc, de todos os componentes daquela família. Acedemos com a curiosidade típica do viajante mas também por solidariedade, agradecendo a hospitalidade daquela gente profundamente rica, humilde e amistosa.

Fadhma – a filha mais velha de 23 anos – foi buscar o Livro com um orgulho do tamanho do dos pais, resplandecendo do seu rosto uma claridade prateada contrastante com um brilho nos olhos em nos poder mostrar aquele precioso documento. Evidentemente que desde o primeiro contacto, lá atrás no tempo e no caminho, a autorização para recolhermos imagens foi prontamente acedida. Nesta sala simples em que a luz vinda de fora pela única janela, filtrada e suavíssima rodeando-nos os semblantes, Fatma e os outros deixam-se fotografar, gravar, fazendo pose imbuídas de uma singela vaidade até porque sentiriam, porventura, que ali estávamos nós não para lhes roubar a alma mas para ali dispormos e acrescentarmos a nossa…

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Com mágoa tivemos que nos apressar um pouco até porque os nossos companheiros de viagem aguardavam-nos, se bem que a nossa demora não se fizesse sentir pela brincadeira pegada com a criançada ! E com tristeza eles não puderam participar neste evento único, tão enternecedor de alguém que nos acolhe e nos oferece o pouco que tem. Nós, momentos atrás, tínhamos-lhes oferecido despojos – as nossas ocidentais sobras – mesmo que em estado irrepreensível, por assim dizer… Coisas sobrantes de uma sociedade consumista embora lápis e papel não caibam neste rol.
Fatma decidira  oferecer aos nossos amigos também o chá, o pão e as amêndoas, transportados em bandejas pelo caminho poeirento, higienicamente cobertas com panos talvez de cozinha.

Deveras sensibilizados com estes gestos tão genuínos custa a partida, mesmo que insistindo Fatma e as filhas que o tal professor atrasado deveria estar mesmo a chegar, que podíamos aguardar uns minutinhos mais

Acabámos por parar na próxima escola, esta sim aberta e já com a miudagem lá dentro, e ofertamos o restante material escolar, entregando-o aos professores ainda cá fora. Ficaram muito agradecidos e surpreendidos embora esta pista seja das mais frequentadas por turistas conduzidos em 4x4 de aluguer com condutor que não perdem tempo com este tipo de paragens inúteis… preferindo viajar, digo comer quilómetros no conforto do ar-condicionado, de vidros fechados porque o pó é demais e sem saberem ou desconfiarem que esta gente existe!

Subindo aos 2.210 metros de paragem obrigatória para vislumbrarmos todo o vale em forma de canyon ao alcance da vista. Lindíssimo, vontade de sentar e aí permanecer quieto e mudo sentindo na brisa a vertigem do momento e do sítio e de olhos lacrimejantes colados no êxtase do verde em luta com o ainda ocre da terra e das pedras eloquentes…

A paisagem mais bonita… melhor, a mais exuberante pista de Marrocos é aqui, na região dos glaouis, enquanto o asfalto prometido mas indesejado não é preenchido por um certo e previsível turismo de sobranceria em luxuosos autopullmans. Um absurdo de beleza e harmonia em que o que resta até Telouèt ainda nos há-de revelar uma inédita surpresa: as minas de sal em pleno Atlas, outrora apelidado País Glaoua.

Marrocos20101018#0326 [JMB]Em Telouèt o prometido é devido, como quem diz venha daí e rápido, sim? a bem nossa conhecida omelette berbere que não nos cansámos de, antecipadamente, festejar e agora comer e chorar por mais! Hammed, uma espécie de chefe local, vem receber-nos e faz-nos companhia obrigando o Manel a curar-se da já habitual e crónica diarreia de Ouarzazate, ingerindo da palma da mão uma dose de cominhos acompanhada com chá de... cominhos! Ao fim do dia, já em Marrakech, Manel decidirá rendido que o remédio havia resultado!

Desta vez não o presenteámos com muitas coisas como em anos anteriores em que as nossas Expedições deixavam roupas, livros infantis e material didáctico para ser entregue na École Maternelle de Telouèt. Nem a revisita ao ksar – abandonado pelos glaouis em 1956 –, importante construção embora com problemas de conservação, ainda assim irrelevantes para as cegonhas ocupantes das cúpulas.

Haveria de se seguir viagem abandonando a pista e devorando o entardecer no asfalto até ao Col du Tichka com os seus 2.260 m. Até Marrakech haveria de ser sempre a descer, tentando nunca contrariar as perigosíssimas curvas da imponente montanha mas ainda dispostos a absorver e a deleitarmo-nos com a suave mas incontornável chegada da noite, de uma luz ténue e difusa.

Entrar na Grande Cidade Vermelha do Sul àquela hora de final de dia início de noite – e não digo em hora de ponta porque dizê-lo seria deturpar a realidade dos factos por na Grande Cidade a hora ser sempre de ponta – é uma experiência alucinante e única, capaz de esfrangalhar o sistema nervoso ao mais fleumático dos mortais!

O GPS indica-nos a exacta localização do Golden Tulip Farah Hotel mas nada nos diz, prevenindo, sobre a vivacidade e o caos que nos esperam nas rotundas e fora delas, nos semáforos e fora deles, nas avenidas e nas ruelas adjacentes à Medina de motocicletas e bicicletas e fumos e carros e autocarros e buzinas e camiões e táxis e ruídos e carroças e burros e cheiros intensos e apitos de polícias e peões no meio das ruas que os passeios são enfeite urbano, e hordas de turistas e cores e pessoas às centenas e aos magotes vindas e idas para todo o lado e em todas as direcções, entrecruzando-se com uma desenvoltura indescritível!

Admirável, caro leitor!
e tudo o que aprendeu nas lições de Código e aulas de Condução esqueça, estamos em África...

... chegámos a Marrakech!


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1 comentário:

Clapotis disse...

Mais um texto lindo, fotos deslumbrantes como esse pais é e que deixa sempre a vontade de lá voltar o mais breve possível! :))