01 abril 2011

Um Dia de Enganos ou A Mentira da Poesia...


… numa inconveniente e fastidiosa prosa
um quase nada poética
necessariamente incompleta
convincente q. b. ou
de como lançar pedras no espaço
em edição revista
e aumentada
poucos dias
após
as comemorações do tal
Dia Mundial da Poesia






(Sendo-lhe exterior e autónomo
independente e auto-suficiente
o Poema ganha vida própria
sobrevivendo à morte do Poeta)

 
 


Que o Poeta é um fingidor
já se sabia.
Que a Poesia é a mais bela das mentiras
pairava a desconfiança.
O engodo é tanto mais sublime quanto a estatura do Poeta.
É-lhe directamente proporcional
que os há grandes - os ditos Maiores;
os outros - os ditos Menores;
e ainda outros - os ditos Malditos
sendo que os do meio são quase todos de alguns de nós onde
obviamente, me incluso.
(Ou não vivesse mesmo eu mesmo mesmo junto ao mar…)


Fragmentos de pensamentos ressequidos que me levam à conspiração
e a um certo Acto de Contrição
pois quanto maior a mentira maior o estatuto de quem a propala.
E todos os veneramos - pelo quanto mentem e da forma como
languidamente, nos deixamos enganar.
Como aquela mulher que não querendo perder seu status
sabendo que está a ser enganada pelo marido
finge que não sabe - fazendo vista grossa - para que nada mude
e a vida porreira assim continue…


Na Poesia também gostamos de ser enganados, ludibriados até ao tutano.
E sentimos uma infinita e gostosa liberdade quando o Poeta diz aquilo que
afinal, também sentimos e desejamos
indo de encontro ao nosso Estado de Alma.
Ele finge que escreve a Verdade, nós fingimos que acreditamos...
e ficamos bem! Ele parece que também...
Pena não termos o engenho nem a versatilidade do pensamento
do dito Grande Poeta. Porque somos os Menores,
os Malditos
ou nem isso…


Curiosamente - ou não! -
recentemente tantos homens passaram a gostar de Poesia...
Há até quem diga que estão mais… românticos!
Elas mastigam indigestas e periódicas solidões, carpidas e a metro desfiadas
desbundando através dos livros publicados em duvidosas Editoras que ninguém lê
mas que fica sempre bem lá isso fica a notícia na Rede Social - naquela onde quem não está não existe!


Muitos deles tolos e dizendo tolos quase mentirosos escrevem Poesia.
É bom e sinto-me feliz porque no fim das contas
o tal prato de iliteracia (ou será aletria?)
diariamente saboreado
rouba qualquer sentido à velha luta de Sócrates
(esse mesmo, o De Magalhães, o nosso, o de inúteis acordos ortográficos...!).
Talvez seja o fado da nossa portugalidade - não podia ser de outra forma
afinal - neste cantinho junto ao mar
e só poderia redundar nisto:
um país de Poetas... e de Loucos!
Um país de mentira, um país a fingir
que o é sem o ser
numa insistente apologia do Antes Parecer do que Ser
que dá muito trabalho!


Meu velho amigo futurista de Almada, o José - pintor poeta e tudo! -
disse num daqueles dias:




Uma nação pode sentir orgulho em ver aumentar a sua produção poética;

porém, a Poesia surpreender-se-á com tamanha popularidade!

Poesia que faz brotar admiradores está seca.

Está feita para estontear.

A Poesia é a linguagem dos Iguais dispersos no Tempo.

Os iguais não se admiram entre si; confiam-se, ou melhor, são iguais. (1)




Parece que alguns de nós somos uns matreiros, pois o que se pretende
amiúde, com a nossa suposta e confundida poesia
não é mais do que aquilo que as mulheres têm entre as pernas…
sempre com muita inspiração da musa em fulgentes vocábulos.
Com toda a pureza!
Na mais sublime castidade, numa espécie de masturbação óbvia
- oblíqua e solitária -
até que os pássaros nos venham debicar às mãos:




Porque o desejo está naquele fruto
- não no da nespereira -
chegado o verão
com os passarinhos a cantarolar
as relas a assobiar
num esvoaçar de folhas caídas…
Soltas no caminho
e nós
… num esplendor na relva…




(Esta é a parte em que vos parece que estou a zombar!)
Olhando nosso umbigo - esquecendo que todos têm um! -
qual Narciso apanhado em flagrante mirando-se na água espelhada daquele lago
apaixonando-se de imediato por si-próprio (ou por ele-mesmo?)
antes de cair distraído e afogar-se - o coitado!
A grandeza do nosso enlevo é proporcional  ao tamanho da mentira
e ao mito de alguns:
quanto maior… melhor!


Em Portugal, como país de poetas que parece ser
desde trovadorescos tempos imemoráveis, não há bons ou maus:
há-os ou não!
Tanto maiores quanto a nossa capacidade para nos deixarmos levar…
Com estas palavras altamente iluminadas pelo sopro do profeta
não se pretende tratar mal a Poesia toda
nem lixá-la em seus géneros, cambiantes ou protagonistas.
Apenas a reter:
há sempre uma deliciosa - mais ou menos - poesia que espera por si!
Em verdade  vos digo - qual boca de Sena em seu mordaz e contundente Reino da Estupidez : 




Paciência.

Tenham paciência;

porque, realmente, para ler os poetas,

o que é preciso é muita paciência. (2) 




Finalizo com a nossa venerável - sempre linda, irreverente
e exuberante - Natália Correia
sem papas na língua nem a merda dos sofismas: 




ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer. (3)







(1) José de Almada Negreiros
in “Prefácio ao Livro de Qualquer Poeta”, Poesia - Obras Completas”
Editorial Estampa, Lisboa, Agosto de 1971





(2) Jorge de Sena
in “Divagação acerca da categoria dos poetas ou cada um come do que gosta”, O Reino da Estupidez-I
2ª Edição, Moraes Editores,Lisboa, Agosto de 1979





(3) Natália Correia
in “A defesa do poeta”, Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea
Editora Nova Aguilar, Brasil 1999
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