15 janeiro 2011

Das Planícies Desérticas às Profundezas Montanhosas (Gargantas do Todra)


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Trezentos e oitenta quilómetros da que viria a revelar-se como a etapa mais dura - não tanto pela sua extensão, se bem que das mais longas - pela agressividade do piso da pista escolhida, numa estreia absoluta.

Deixando vagarosamente a planície ondulada de cor pimenta onde o vento levantando o pó das areias tristes da partida comove como que acenando até breve, apoderando-se do espírito que nem uma última paragem antes de deixar o Erg Chebbi serve de consolação no derradeiro café deleitado defronte das dunas nascidas mesmo ali aos nossos pés: eis a nostalgia que assalta.

Percorrida num largo corredor entre montanhas escuras ou abruptas ou de declives suaves em variadas tonalidades cresce a saudade no diminuir da distância…

Este ano não almoçamos na La Gazelle du Sud, deixando Alnif e a sua pista agora asfaltada e já nossa conhecida em direcção a Tazzarine, depois Nekob. Decididos pelo trilho de terra batida ou de pedra pontiaguda ou redonda que parte de Nekob e que nos levaria a Tinerhir, entrando boquiabertos pelas gargantas do rio Todgha.

Percurso apenas possível em 4x4, sinuoso e estreito - que em grande parte do seu traçado não permite sequer o cruzamento de duas viaturas - pelas margens dos rios, junto a habitações abandonadas por dissolvidas pelas águas das chuvas e ou dos caudais insubmissos. Casas feitas do ocre da terra cujos habitantes constroem outras mesmo ao lado que um dia serão igualmente dissolvidas e levadas neste ancestral e ritual modo de vida. Ora subindo e descendo ladeando ou serpenteando encostas agrestes das montanhas, a progressão é lenta e saltitante, tantas vezes à custa da inserção de velocidades redutoras, galgando calhaus pó e o deslumbramento de paisagens arrebatadoras pela sua solenidade. Homens e mulheres que se dedicam à agricultura verdejante nos campos de terraços fluviais em contraste flagrante com a rudeza das pedras. Lavadeiras à beira do caminho afogando mantas e expondo-as sufocadas ao sol envaidecidas pela geometria das cores brilhantes e garridas.

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Em cada aldeola um punhado de crianças irrequietas descalças sujas rasgadas bem nutridas e sorridentes nos assaltam em pedinchice desconcertante soltando de rajada e por esta ordem cadeaux bombons stylos dirham dirham [ufa!], estendendo as mãos enegrecidas, rasgando sorrisos, conquistando simpatias.

Por nós baptizado Café Toilit, ergue-se de pedra um albergue rudimentar e austero no descrever de uma curva quase no cume da montanha onde ao lado uma tenda berbere serve para uma merecida pausa. Uma e outra bebida e oferta de algumas roupas à única família que ali vive: casal, filha e avó berberes destas montanhas isoladas do Atlas. A pequena Aicha, primeiro num sorriso tímido que se abrindo de luz resplandece, nos cativa enchendo de ternura pela alegria com que recebe nas mãos roupinha nova. Café cola e água, à nossa pergunta de quanto devemos um imediato e surpreendente o que vocês quiserem dar… É que os códigos morais e éticos destes berberes afinal tão tangentes aos nossos de ocidentais europeus e supostamente bem educados…!

Local de possível pernoita para quem se atreve à descoberta neste isolamento infernal de intemporalidade autóctone do rigor do inverno que liberta os poucos habitantes das serranias do inferno tórrido de um verão.

Já noite escura chegando a Tinerhir, sem qualquer receio do breu da noite nem das estrelas por companhia suspensas. E nós suspensos…

Chegada à hora de jantar ao Albergue Les Roches cujo gerador se cala pela meia-noite deixando que apenas o sussurro das águas permaneça e a única luz subjacente que é a das velas ilumine a escuridão dos quartos e o negrume de lá fora, digo que o Albergue  no sopé da montanha como que lá plantado aguardando que num dia ou mais toneladas de pedras gigantescas se desenrolem por cima esmagando-o. Felizmente as nossas companheiras não se apercebem da dimensão da tragédia anunciada! Nada iria desabar naquele dia naquela noite nem no dia seguinte mas que um dia irá… irá!

Vale imponente cavado pelo rio Todgha num processo lento e sempre moroso de milhões de anos, esculpindo uma garganta profunda de falésias verticais ou oblíquas sobre o raro casario e a pista ou a estrada que todos os anos é refeita devido às torrentes de lama e pedras arrastadas para fora do leito. Como se a pista ou a estrada ou o raro casario fizessem parte do seu leito… e fazem!

Região magnífica dominada pela grandiosidade e altivez sobranceira dos cumes ou pelo verdejante e luxuriante palmar vizinho de Tinerhir, pululando de vida em tons de ocre e rubros de entardecer.
Enorme sentimento de pequenez o nosso e deslumbramento perante a beleza rude e erodida da serra. Apenas as gentes as vilas as aldeias… e as crianças cheias de ternura quebrando.

Não há outra forma de conhecer este maravilhoso país senão abdicando de folhetos mais ou menos turísticos e trilhar às profundezas. Se querendo penetrar na alma destes povos há que habitá-la… ainda que por um momento apenas!
 

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FotoDiário de Viagem

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1 comentário:

Anónimo disse...

Uma etapa que teve tanto de dureza como de beleza! Ansiosa por lá voltar, apesar das toneladas de pedras gigantescas que me podem cair em cima!:))
Fátima