06 julho 2010

Caminho de Santiago – Etapa 04: Pontesampaio » Teo



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Etapa 04:
08.06.2010
Pontesampaio (Acampamento) » Teo (Albergue)
Km: 71,80
Duração: 11:50H
 

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Ansiedade…
 
Após tomar o pequeno-almoço dentro da tenda - a chuva prolongara-se incessante durante a noite e madrugada -, retomei o Caminho do dia anterior. Avancei para a Calçada do Monte de Canicouva, atalhando com a ajuda do GPS, até ao local onde ontem tinha decidido voltar para trás, para pernoitar.


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Já no sopé da Calçada e enquanto me preparava para iniciar a subida, sou abordado por um simpático peregrino brasileiro que, embora só naquele instante, percorria o Caminho com a mulher, bastante mais atrasada. Ambos inseridos num grupo maior de brasileiros, mas já todos tão dispersos no terreno que nunca haveria de cruzar com eles. Apenas com a senhora, mais tarde, a meio da subida. Daqui, o meu abraço para o José!


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Uma ascensão algo penosa - não tanto como a da Labruja, mas, ainda assim, dura!
Chovia, as pedras molhadas e a lama dificultavam a progressão. Tantas vezes com a bicicleta pela mão, escorregando no Caminho pelo facto dos sapatos de ciclista não serem apropriados a caminhadas, pois a sua fraca aderência, dificultavam a tracção.

Foram cerca de 3,5 km que demoraram mais de uma hora a percorrer! Não obstante, troço de rara beleza, muito verde à mistura com o granito da calçada. Os cheiros eram agora mais intensos pela humidade circundante e pela chuva constante. Claro que no cume da subida encontrava-me alagado em suor… e pela água caída do céu: completamente ensopado, por dentro e por fora, com os pés numa lástima de lama e humidade.


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Após circular pelo cume da montanha, aproveitando para reabastecer e descansar numa fonte próxima, inicia-se a descida da encosta oposta. Momentos de puro prazer, raramente pedalando, aproveitando a descida para refrescar o que já estava gelado: mãos e pés. Ainda assim, este percurso tem um sabor especial, numa manhã envolta em nevoeiro e muita húmida da chuva miudinha a não desistir. Eu também não…!

Eis quando, no sopé da montanha, encontro um barracão sazonal onde me sirvo de café com leite, bem quente. Não poderia querer melhor - mesmo a calhar - completamente inesperado! Marquei este waypoint no GPS que consta do track do percurso mas com a condicionante de este bar permanecer aberto apenas entre a Semana Santa e 1 de Setembro de cada ano, quando há maior fluxo de peregrinos.


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Pontevedra é a próxima paragem. Sempre debaixo de chuva, encontro alguma dificuldade para seguir as marcações do Caminho. Fazendo algumas fotografias, sigo para norte, na direcção do Rio Lérez, percorrendo um fabuloso bosque! Caminho completamente alagado, enlameado, com muitas pedras e de vegetação luxuriante, fazendo-me lembrar o Gerês.


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Muito sombrio e húmido. Extremamente bonito, com muitas subidas pouco extensas e descidas leves. Senti um prazer especial neste troço, apesar de continuar com todo o corpo encharcado. Mãos e pés gelados, desconfortável, numa humidade quente que se evaporava do meu corpo transpirado, refrescado pelas pingas grossas que me caíam das árvores. Tantas vezes pelo pescoço abaixo. Arrepiante mas saboroso.

Mantinham-me acordado e fresco (!), gerindo as consequências da noite curta e o esforço dispendido.


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Até chegar a Caldas de Reis, o percurso é do mais bonito que já havia visto: atravessando vinhas e campos, ziguezagueando por veredas estreitas e caminhos particulares de uso comum. Seguindo por debaixo de ramadas ou pela berma da N-550, a cerca de 40 km para Santiago, circulando por aquela via. Fantástico e deslumbrante!


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Paragem obrigatória nesta terra de rara beleza em que o granito se mistura na paisagem com eloquência.

Imperdível!


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Deixa-se esta importante localidade em direcção a Carracedo, ao longo de uma vale aberto e extenso, de campos cultivados e em que a verdura perdura. Caminho que se embrenha, novamente, num bosque fechado e muito bonito, após Santa Maria de Carracedo. Subidas e descidas constantes, trilho estreito onde o cantar das águas é eloquente. Momentos em que o sentimento de isolamento é total; em que a sensação de liberdade é inultrapassável; em que, mais uma vez, nos rendemos aos dons da Natureza, que ali nos acolhe com todo o seu esplendor!


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Para os puros bttistas este troço é do melhor, meus caros! Lindo e de grande gozo na condução se bem que perigoso, pois o precipício camuflado é constante. Muitas ravinas e muita atenção, portanto!


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À medida que me vou aproximando de Padrón, cresce o cansaço e, sobretudo, a ansiedade. Sei e sinto que estou perto… do fim. Numa marcação, consta que faltam apenas 18,369 km para Compostela.


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Alguma tristeza - uma certa melancolia - se vai apoderando do meu espírito. Sacudo-os com um café, em frente ao Santuário da Escravitude, antes de continuar.


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Esta seria uma etapa longa e tinha decidido que não queria chegar a Compostela ao anoitecer. A minha opção - que se revelou acertadíssima - era a de pernoitar nas imediações de Santiago para, na manhã seguinte, percorrer os quilómetros restantes, num percurso apoteótico, com uma chegada triunfal à Praça do Obradoiro! Até porque queria participar na Missa do Peregrino, entre outras coisas.


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Sabia que havia um albergue em Teo - a cerca de 15 km de Compostela - e foi para lá que me arrastei nos poucos quilómetros que faltavam. Uma desatenção minha levou-me a duplicar troços até encontrar o dito albergue, mesmo à frente dos meus olhos…! O cansaço, a ansiedade e o navegar só pregam-nos destas partidas…!


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O albergue estava cheio. Espaço acanhado, com duas camaratas para 28 pessoas, em que a desarrumação era quase total. Quer no interior quer no alpendre o que mais havia era roupa e calçado a secar…

Depois de um banho quente, peguei nas tralhas e procurei arranjar corda para estender o que tinha molhado: toda a roupa excepto a da bagagem.

Nas redondezas, apenas há uma “venda” onde se pode comprar alguns alimentos para cozinhar. Após 1200 metros de caminhada à chuva, lá trouxe duas latas de atum, batatas fritas, cola, bolachas, leite achocolatado e metade de um pão comprido, gentilmente dispensado pela dona. Foi o meu jantar, completamente só na cozinha comum, pois já toda a gente tinha feito o mesmo e recolhido às camaratas.

Eram apenas 20:30h…! Para mim, é deprimente deitar-me tão cedo, estou habituado a dormir apenas cinco horas por dia! Mais do que isso, só me faz mal…! Enquanto lia uns prospectos pousados numa mesa, alinhava ideias nos meus apontamentos e recarregava a bateria de pilhas.

O vento fustigava as árvores contíguas ao albergue. Chovia com intensidade e, quando saía para fumar no alpendre, sentava-me no banco corrido de metal, inalando aromas intensos. Absorvendo a noite no bosque, o barulho da água correndo no ribeiro, o abanar das folhas e todos os ruídos como que anunciando tempestade!

Pelas onze, um pouco contrafeito, lá resolvi render-me ao saco-cama, na camarata do piso superior. Apaguei todas as luzes dos espaços comuns e, descalço, pé ante pé, e de lanterna na mão, meti-me naquele sítio onde todos os sonhos se revelam reais…!
 
 

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