01 julho 2010

Caminho de Santiago – Etapa 03: Rubiães » Pontesampaio



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Etapa 03
07.Junho.2010
Rubiães (Albergue) » Pontesampaio (Acampamento)
Km: 73,20
Duração: 11:20H 

  
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Persistência…

Ontem, quando cheguei, as bicicletas austríacas já se encontravam estacionadas, em local próprio, neste magnífico Albergue de S. Pedro de Rubiães. Antiga escola primária reconstruída e excelentemente adaptada aos novos fins a que se destina. Muito bom, espaçoso, limpo e acolhedor. À minha entrada - não encontrando ninguém na recepção - e à minha pergunta do quem me atende?, um peregrino responde-me, num imediato e contundente serve-te, a casa é tua! Levantando-se, mostrou-me todo o interior, a cozinha, indicando-me uma camarata quase cheia, a avaliar pela confusão de coisas, mais ou menos desarrumadas.

Mas, numa coisa reparei, que todo o calçado se encontrava no exterior!

Saí a pé para jantar num bom (e único) restaurante nas redondezas, cruzando com o casal austríaco, já de regresso ao albergue. 

Eu regressado, a algazarra era enorme na sala de convívio, com um grupo de alemães, estridentes, muito conversadores. Todos tinham um copo de vinho na mão!

Estenderam-me um, num convite à minha  participação na sua animada confraria. Sorridente, amavelmente recusei pois havia muitas coisas a fazer ainda, antes de entregar o corpo ao repouso: recarregar baterias, transferir fotografias para o PC e tentar, sem sucesso, acesso à internet. Além das notas diárias que vou escrevendo.

Evidentemente que fui dos últimos a meter-me na cama, com extremo cuidado, às escuras, para não perturbar o descanso de quase todos que já dormiam, a avaliar pelos roncos exasperados de alguns…!
 

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A manhã foi aberta com os simpáticos, ruidosos e irritantes abre e fecha dos eclairs peregrinos que me circundavam. Eram cinco da manhã, meu deus, e muitos já se tinham posto a Caminho!

De Rubiães a S. Bento da Porta Aberta, o percurso é lindíssimo, entre campos e áreas cultivadas; fácil e agradável de percorrer, tendo reencontrado o casal austríaco tomando o pequeno-almoço. Fiz-lhes um pouco de companhia durante o meu primeiro café e estabeleci conversa com uma peregrina  francesa, solitária,que caminhava desde Lisboa (donde partira a 20 de Maio). Quando chegasse  a Compostela, percorreria ainda a extensão para o Cabo Finisterra. Pôs-se de pé - mulher de mais de 50 anos –, partiu e reparei… mas que pernas!

Em S. Bento da Porta Aberta, o segundo café e um carimbo na Credencial antes de iniciar descida espectacular até Fontoura! Estreita, curvilínea, íngreme e muito técnica… excitante!

Passagem de uma ribeira a vau, desviando do traçado original para não ter de desmontar a carga por a passagem ser muito estreita. Molhei o calçado, os pés e por lá deixei a boiar resquícios fundamentalistas…!


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De Fontoura a Valença do Minho, o percurso é pouco interessante: por arruamentos e casario, onde se começa a notar a deficiente marcação do Caminho, o que até aqui ainda não havia acontecido. Enquanto subia para norte, lá ao longe, no alto, as nuvens acinzentavam-se de ameaças. Outras, já bem escuras, faziam temer o pior… brevemente!

À entrada da ponte férrea internacional, aproveitei para acrescentar a bandeira espanhola, em sinal de respeito por Espanha, especialmente por essa terra galega que eu adoro!

Referência ao civismo dos condutores espanhóis com os quais, teimosamente digo que temos quase tudo a aprender sobre maturidade e inteligência na estrada…! Viria a confirmar mais tarde e variadas vezes - durante todo o percurso em Espanha - que nós, ciclistas, somos respeitados, objecto da mais profunda simpatia por esses condutores, extremamente cautelosos quando decidem ultrapassar-nos.


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Em Tui, subida ao centro histórico, muito bonito e descida de algumas escadarias, com a bicicleta à mão, tornando-se algo fastidioso o regresso à Av. de Portugal.

Entre Tui e O Porriño, o troço é o mais desinteressante de todo o Caminho, atravessando, durante alguns quilómetros, a zona industrial. Marcação deficiente do Caminho e, para agravar, começa a chover, chuva essa que raramente pararia até chegar a Compostela.


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De O Porriño até Redondela, o percurso é interessante, muitas subidas e caminhos vicinais. A chuva que cai sem cessar, deixa-me todo molhado - sobretudo nos pés -, causando algum desconforto e sensação de frio.

Supostamente, pernoitaria no Camping de Redondela mas optei pelo Albergue de Peregrinos. Acontece que, durante a tarde, encontrei dois grupos grandes de peregrinos portugueses com quem havia estabelecido contacto e tirado fotografias, tendo ficado a saber que iriam pernoitar naquele albergue; atendendo ao facto de os ciclistas não terem qualquer prioridade – antes pelo contrário, incompreensivelmente! – sobre os que fazem o Caminho a pé, eu teria de aguardar pelas 20:00h para ficar a saber se teria ou não vaga no albergue.

Como sabia que não iria ter, por este já se encontrar perto da lotação máxima, resolvi, mesmo com a chuva, continuar e avançar até onde pudesse.
 

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Onde dormir… logo se veria! Visitei o albergue - a Casa da Torre , do século XVI - que é excelente, aproveitando para carimbar a minha Credencial e seguir Caminho…

Com o trânsito muito intenso na perigosa e movimentada N-550, perdi-me à saída de Redondela por haver veículos obstruindo a visão das marcações. Reencontrei-me, após vários quilómetros para trás e para a frente. Foi um momento algo maçador mas nunca perdi a vontade de continuar, mesmo com o mau tempo.

Alguma impaciência foi o sentido mas lá redescobri o caminho correcto.


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Começava a inquietar-me a dor sentida no joelho esquerdo, fruto de um espectacular trambolhão, no início da 2ª Etapa. Trambolhão porque caí mesmo, de joelho e cotovelo em peso no chão; espectacular porque, ao contrário do se poderia esperar, à saída de uma qualquer curva apertada, caí… parado! Enquanto fotografava, sem desmontar, desequilibrei-me para a esquerda, o pé ficou preso no pedal e, quando o consegui desprender, já estava esticado ao comprido no chão, tendo embatido com violência… e contundência!
 

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Vinte quilómetros após, atravesso Pontevedra, com o seu centro histórico digno de visita demorada não fosse a chuva teimando em não parar de cair.

Em Arcade, no final de uma descida, entro na malha urbana e detenho-me numa frutaria. Apeado, comprei algumas peças e deleitei-me, mesmo defronte ao estabelecimento e debaixo da chuva miudinha, comendo e recuperando forças.

Eram 19:30h duma tarde feia, quase anoitecida. Atravessada a ponte de Pontesampaio, entro no seu núcleo histórico, subindo, acusando cansaço, mas seguindo viagem num trecho bonito no seio da histórica povoação.


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A minha teimosia levou-me até onde a decisão - tardia mas acertada - me fez dar meia volta e regressar a Pontesampaio.. É que às oito da noite, encontrara pela frente uma subida íngreme, semi-destruída, a Calçada do Monte Canicouva. Não poderia prever nem saber da sua extensão nem o que me esperaria pela frente. Entre outras coisas, a noite escura, solitária e chuvosa… certamente!
 

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Acerquei-me de quatro homens que conversavam junto do Rio Oitavén para confirmar aquilo que julgava saber: nem pensões, nem albergues, nem parques de campismo nas redondezas! Por apenas uma noite, convenceram-me que ficaria em segurança acampado junto ao rio, onde um holandês, na semana anterior, havia pernoitado. Era mais ou menos isto que eu desejava ouvir!

S. Pedro não estava comigo mas acho que S. Tiago terá dado um jeito porque a chuva parou para eu montar a tenda e só retomou depois de montada para voltar a parar de cair para a desmontar, na manhã seguinte!

Tempo para um mergulho no rio, seguido de um banho num chuveiro público, ao ar livre!

Era isto - apenas isto - tudo o que eu queria naquele bucólico entardecer…


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Atravessando a pé a ponte até Arcade, procurei restaurante tendo comido uma deliciosa pizza, crocante e a fumegar no utensílio em que veio para a mesa. Divina!

Quando não conhecemos o sítio, os lugares revelam-nos ruídos e acontecimentos estranhos. Já dentro da tenda - devo ter adormecido pelas 3h da manhã -, ouvia o ruído dos peixes a saltar na água, latidos de cães, vozes de animais desconhecidos, uivos, aves nocturnas, tornando a noite fantasmagórica e algo irreal.

Invadido por uma plena paz misturada com um saboroso cansaço… feliz por estar ali tão só e tão acompanhado… devo ter adormecido…!

  

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