13 julho 2010

Caminho de Santiago – Etapa 05: Teo » Santiago de Compostela



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Etapa 05
09.06.2010
Teo (Albergue) » Santiago de Compostela (Catedral)
Km: 17,09
Duração: 03:10H

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Caminho do Espírito…
 
Mais uma vez, eu seria o último peregrino a abandonar um albergue que os montanheiros são muito mais madrugadores que os ciclistas!

Tinha acordado com uma grande ansiedade espetada no peito, sendo, progressivamente, dissolvida através dos quilómetros mordiscados pela chuva miudinha, fria e constante.
 

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Claro que eu pensava, à partida, que esta seria uma etapa - por ser a última e muito curta - apoteótica e fácil de percorrer, pois Compostela estava a menos de uma vintena de quilómetros. Enganei-me! Não na distância mas na facilidade com que a encarava. Quase sempre em sentido ascendente - com apenas uma ou outra descida - o trajecto demonstrou que S. Tiago ainda exigia de mim um esforço suplementar - talvez pelos meus incontáveis pecados - pois, embora extremamente interessante, o Caminho, sem ser difícil, não era de ser fazer com uma perna às costas: ambas nos pedais e sempre a dar-lhe!


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No primeiro troço, percorre-se a Rúa de Francos. Um bosque lindo com calçada romana e ponte medieval sobre o Rio Tinto e onde um original e quase único cruzeiro gótico prende a atenção.

A passagem por Milladoiro é sempre a subir que, sem ser de grande declive, é alongada até próximo de Monte de Agros dos Monteiros (uma espécie de Monte do Gozo do Caminho Francês) de onde já se avista a cidade do Apóstolo.


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A última subida, já na cidade, é terrível! Desgastado e com dores musculares - reflexo dos dias anteriores -, revela-se árdua de ultrapassar porque muito pronunciada e extensa até entrar no centro de Compostela. É nesta subida que reencontro os três ciclistas portugueses, anteriormente referidos. Circulando todos juntos até à entrada na Praça do Obradoiro, a que dá acesso à fachada principal da Catedral. Entrámos juntos… mas separados, se bem entendem…! Os tais que, mal chegados… partiram de imediato!

No meu caso foi chegar... e permanecer!
 

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Após almoço num restaurante simples e confortável nos arredores da Catedral, tempo para a visita obrigatória à Oficina do Peregrino, nas imediações. Para o último carimbo na Credencial bem como a emissão da Compostela.

Eu não sabia mas aqui, no rés-do-chão e em espaço reservado, podem-se guardar as bicicletas em segurança enquanto se visita Santiago. Muita simpatia e cumplicidade foi o sentido por parte dos funcionários que me atenderam. Há um posto dos Caminhos de Ferro Renfe onde pode ser fornecido um horário de comboios, bem como um cartão que oferece um desconto de 20% na viagem de pessoa e bicicleta entre Compostela e Vigo.


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Em Vigo, efectua-se o transbordo para um comboio português que pára em Valença do Minho para trocar a tripulação espanhola pela portuguesa.

Estação de Campanhã, no Porto, pelas 22:00h, mais um trajecto de metropolitano até Matosinhos e, só depois de mais uns 2 ou 3 km de bicicleta até casa para terminar esta aventura solitária mas extremamente enriquecedora e inesquecível!


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Uma referência justa à minha velha companheira de quinze anos, que por uma vez só reclamou - gemendo intensamente - prontamente atendida numa oficina espanhola: um pouco de lubrificante e nunca mais a ouvi…!

A minha Proflex 856 World Cup.


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Caminhos do Espírito
 
Fazemo-los por amor, por fé ou crença, pelo gosto pela aventura, pelo desafiar os próprios limites ou até por desespero. Com mais ou menos razão há sempre aquela alavanca que dá o impulso inicial.

E depois?

Depois vem o desmistificar do sonho, tudo aquilo que se projectou durante o tempo de preparação não se compara ao que se sente na hora da realização. A alma expectante e o coração aberto, cheios de esperança numa vivência única e, com certeza transcendente em toda a sua abrangência… uma nova emoção, um sentir novo a cada desafio superado, física e espiritualmente. Para mim espiritual, porque tu estás lá e eu estou contigo, sinto, sinto na alma e sinto no coração.

Um sentir sereno porque se alimenta de uma cumplicidade infinita, pura e partilhada com a nobreza dos sentimentos. Mas, um sentir que por vezes também se sobressalta quando o pensamento resvala para as dificuldades que possas estar a ter… volta a serenidade com a próxima troca de mensagens, sempre rápida mas de grande intensidade.

E assim se vai posicionando a minha alma inseparável da tua.

Comunhão de fé, sonhos e esperança saudavelmente preenchida pelos caminhos do espírito…!
 

Luísa Tavares




 
 

Caminho Português de Santiago (Medieval) Junho 2010
 


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ALGUNS NÚMEROS
5 Etapas, 4 dias e meio
47 horas de Caminho
531 fotografias
Álbum: 396 fotografias
Caminho percorrido: 292 km
CPS (Medieval): 253 km
 
 

CONTRIBUTOS
Santiago Pela Via Lunar de Celina Fioravanti, Pergaminho, 1ª Edição, 2001
O Diário de um Mago de Paulo Coelho, Pergaminho, 3ª Edição, 1999
Caminho Português - Os Caminhos de Santiago na Galiza, Xunta de Galicia, 2007
 

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06 julho 2010

Caminho de Santiago – Etapa 04: Pontesampaio » Teo



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Etapa 04:
08.06.2010
Pontesampaio (Acampamento) » Teo (Albergue)
Km: 71,80
Duração: 11:50H
 

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Ansiedade…
 
Após tomar o pequeno-almoço dentro da tenda - a chuva prolongara-se incessante durante a noite e madrugada -, retomei o Caminho do dia anterior. Avancei para a Calçada do Monte de Canicouva, atalhando com a ajuda do GPS, até ao local onde ontem tinha decidido voltar para trás, para pernoitar.


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Já no sopé da Calçada e enquanto me preparava para iniciar a subida, sou abordado por um simpático peregrino brasileiro que, embora só naquele instante, percorria o Caminho com a mulher, bastante mais atrasada. Ambos inseridos num grupo maior de brasileiros, mas já todos tão dispersos no terreno que nunca haveria de cruzar com eles. Apenas com a senhora, mais tarde, a meio da subida. Daqui, o meu abraço para o José!


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Uma ascensão algo penosa - não tanto como a da Labruja, mas, ainda assim, dura!
Chovia, as pedras molhadas e a lama dificultavam a progressão. Tantas vezes com a bicicleta pela mão, escorregando no Caminho pelo facto dos sapatos de ciclista não serem apropriados a caminhadas, pois a sua fraca aderência, dificultavam a tracção.

Foram cerca de 3,5 km que demoraram mais de uma hora a percorrer! Não obstante, troço de rara beleza, muito verde à mistura com o granito da calçada. Os cheiros eram agora mais intensos pela humidade circundante e pela chuva constante. Claro que no cume da subida encontrava-me alagado em suor… e pela água caída do céu: completamente ensopado, por dentro e por fora, com os pés numa lástima de lama e humidade.


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Após circular pelo cume da montanha, aproveitando para reabastecer e descansar numa fonte próxima, inicia-se a descida da encosta oposta. Momentos de puro prazer, raramente pedalando, aproveitando a descida para refrescar o que já estava gelado: mãos e pés. Ainda assim, este percurso tem um sabor especial, numa manhã envolta em nevoeiro e muita húmida da chuva miudinha a não desistir. Eu também não…!

Eis quando, no sopé da montanha, encontro um barracão sazonal onde me sirvo de café com leite, bem quente. Não poderia querer melhor - mesmo a calhar - completamente inesperado! Marquei este waypoint no GPS que consta do track do percurso mas com a condicionante de este bar permanecer aberto apenas entre a Semana Santa e 1 de Setembro de cada ano, quando há maior fluxo de peregrinos.


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Pontevedra é a próxima paragem. Sempre debaixo de chuva, encontro alguma dificuldade para seguir as marcações do Caminho. Fazendo algumas fotografias, sigo para norte, na direcção do Rio Lérez, percorrendo um fabuloso bosque! Caminho completamente alagado, enlameado, com muitas pedras e de vegetação luxuriante, fazendo-me lembrar o Gerês.


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Muito sombrio e húmido. Extremamente bonito, com muitas subidas pouco extensas e descidas leves. Senti um prazer especial neste troço, apesar de continuar com todo o corpo encharcado. Mãos e pés gelados, desconfortável, numa humidade quente que se evaporava do meu corpo transpirado, refrescado pelas pingas grossas que me caíam das árvores. Tantas vezes pelo pescoço abaixo. Arrepiante mas saboroso.

Mantinham-me acordado e fresco (!), gerindo as consequências da noite curta e o esforço dispendido.


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Até chegar a Caldas de Reis, o percurso é do mais bonito que já havia visto: atravessando vinhas e campos, ziguezagueando por veredas estreitas e caminhos particulares de uso comum. Seguindo por debaixo de ramadas ou pela berma da N-550, a cerca de 40 km para Santiago, circulando por aquela via. Fantástico e deslumbrante!


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Paragem obrigatória nesta terra de rara beleza em que o granito se mistura na paisagem com eloquência.

Imperdível!


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Deixa-se esta importante localidade em direcção a Carracedo, ao longo de uma vale aberto e extenso, de campos cultivados e em que a verdura perdura. Caminho que se embrenha, novamente, num bosque fechado e muito bonito, após Santa Maria de Carracedo. Subidas e descidas constantes, trilho estreito onde o cantar das águas é eloquente. Momentos em que o sentimento de isolamento é total; em que a sensação de liberdade é inultrapassável; em que, mais uma vez, nos rendemos aos dons da Natureza, que ali nos acolhe com todo o seu esplendor!


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Para os puros bttistas este troço é do melhor, meus caros! Lindo e de grande gozo na condução se bem que perigoso, pois o precipício camuflado é constante. Muitas ravinas e muita atenção, portanto!


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À medida que me vou aproximando de Padrón, cresce o cansaço e, sobretudo, a ansiedade. Sei e sinto que estou perto… do fim. Numa marcação, consta que faltam apenas 18,369 km para Compostela.


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Alguma tristeza - uma certa melancolia - se vai apoderando do meu espírito. Sacudo-os com um café, em frente ao Santuário da Escravitude, antes de continuar.


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Esta seria uma etapa longa e tinha decidido que não queria chegar a Compostela ao anoitecer. A minha opção - que se revelou acertadíssima - era a de pernoitar nas imediações de Santiago para, na manhã seguinte, percorrer os quilómetros restantes, num percurso apoteótico, com uma chegada triunfal à Praça do Obradoiro! Até porque queria participar na Missa do Peregrino, entre outras coisas.


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Sabia que havia um albergue em Teo - a cerca de 15 km de Compostela - e foi para lá que me arrastei nos poucos quilómetros que faltavam. Uma desatenção minha levou-me a duplicar troços até encontrar o dito albergue, mesmo à frente dos meus olhos…! O cansaço, a ansiedade e o navegar só pregam-nos destas partidas…!


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O albergue estava cheio. Espaço acanhado, com duas camaratas para 28 pessoas, em que a desarrumação era quase total. Quer no interior quer no alpendre o que mais havia era roupa e calçado a secar…

Depois de um banho quente, peguei nas tralhas e procurei arranjar corda para estender o que tinha molhado: toda a roupa excepto a da bagagem.

Nas redondezas, apenas há uma “venda” onde se pode comprar alguns alimentos para cozinhar. Após 1200 metros de caminhada à chuva, lá trouxe duas latas de atum, batatas fritas, cola, bolachas, leite achocolatado e metade de um pão comprido, gentilmente dispensado pela dona. Foi o meu jantar, completamente só na cozinha comum, pois já toda a gente tinha feito o mesmo e recolhido às camaratas.

Eram apenas 20:30h…! Para mim, é deprimente deitar-me tão cedo, estou habituado a dormir apenas cinco horas por dia! Mais do que isso, só me faz mal…! Enquanto lia uns prospectos pousados numa mesa, alinhava ideias nos meus apontamentos e recarregava a bateria de pilhas.

O vento fustigava as árvores contíguas ao albergue. Chovia com intensidade e, quando saía para fumar no alpendre, sentava-me no banco corrido de metal, inalando aromas intensos. Absorvendo a noite no bosque, o barulho da água correndo no ribeiro, o abanar das folhas e todos os ruídos como que anunciando tempestade!

Pelas onze, um pouco contrafeito, lá resolvi render-me ao saco-cama, na camarata do piso superior. Apaguei todas as luzes dos espaços comuns e, descalço, pé ante pé, e de lanterna na mão, meti-me naquele sítio onde todos os sonhos se revelam reais…!
 
 

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