20 junho 2010

Caminhos de Santiago (Parte III) - Ao quinto dia chegar… e permanecer!




  


 

Por um bem-estar, satisfação ou realização pessoal
Por uma devoção de encanto saudável
Elevas o espírito ao mais alto do teu querer
De alma plena e coração cheio
Ofereces dedicação, amor, entrega…
Nesse caminho que se adivinha de reflexão
Sinto a dádiva por um sonho de vida
Com sabor a aventura testas limites
Vais ao mais profundo do teu ser
Sem alarde, sem o desespero na alma
Mostras grandiosidade e nobreza…
Meu amigo, “pedalo” espiritualmente contigo…!

Luísa Tavares
 



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Nada muda com o tempo…
 



9 de Junho, 11 horas da manhã, Plaza del Obradoiro.

Finalmente, a imponência da Catedral ocupando-me e enchendo-me os olhos lacrimejantes de emoção…

Cheguei montado naquela que foi a minha única companhia desta viagem solitária – nem por um segundo apenas senti a solidão! -, meio de locomoção escolhido para percorrer todo este Caminho. Sem nunca se queixar ou vacilar; nem um único furo apesar dos maus tratos infligidos pelas subidas abruptas, descidas vertiginosas, chuva durante três dias, muita lama acumulada e pedras… muitas pedras no Caminho!

Sento-me no granito, num dos extremos desta imensa praça, contemplando a Obra e as gentes que de todos os cantos vão chegando. Por todos os meios, de todas as proveniências, parece que um pouco do mundo todo se reúne aqui. Que move toda esta gente?
 


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Há quem chegue de bicicleta, encharcados e sempre em grupos. Um deles constituído por três portugueses, anteriormente reconhecidos por duas ou três vezes, no percurso espanhol. Passaram por mim, enquanto fotografada a Virgem do Caminho, tendo seguido atrás deles durante algum tempo.

Tínhamos chegado ao mesmo tempo a Compostela, embora separados por alguns metros e, concerteza, pelos propósitos…

Apoderaram-se do centro, defronte da magnífica fachada barroca da Catedral, virada a oeste e, quando me dou conta… já estavam de partida! Como quem chega, bate com a mão na parede e desanda…! Tanta pressa, meu deus… Tanto esforço só para “aquilo”…?!

Bem tinha achado que eles pedalavam com muita pressa, demasiada pressa, para mim – como quem está atrasado. A única vez que saí do meu próprio ritmo, tentando juntar-me ao grupo para alguns quilómetros conjuntos, acabei por perder a oportunidade de fotografar uma bela ponte romana. Além de que ia bem mais carregado do que qualquer um deles. Desisti deles… em meu favor!

Imbuído nestas conjecturas, sinto que alguém me toca no ombro com delicadeza: uma senhora asiática, com uma máquina fotográfica em punho e um sorriso lindo, pediu-me para me deixar fotografar junto da bicicleta. Estendi-lhe o meu melhor sorriso, acenando que sim… partindo ela, de seguida.
 


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Uma grande parte dos peregrinos, obviamente, chega a pé, alguns em estado lastimável: encharcados, enlameados, coxeando… Continuava a chover, desde há três dias e eu que quase nem dava por isso. Sentia humidade entranhada no corpo, misto de suor e água infiltrada. E o desconforto dos pés ensopados, mas sentia-me feliz, realizado e tomado por uma sensação indescritível de uma plena e serena liberdade.

Uma tranquilidade tamanha mas que não me impedia de atentar nas hordas de turigrinos arremessados à Praça por filas de autocarros excursionistas.

Todos fazem as fotos da praxe, defronte do Pórtico do Obradoiro, para depois mostrarem que estiveram lá…!

Tenho algum pudor – descabido, talvez – em emita-los, embora me apeteça, pois, mais do que estar lá, importa-me – isso sim - o Caminho que lá me levou…

Com a bicicleta pela mão, cedo a este laivo de vaidade, percorrendo toda a extensão da Praça, encostando-a contígua à escadaria de acesso à porta principal da Catedral. Reparo, então, num japonês que me segue com o olhar e, aproximando-se, pede para me fotografar. Respondo-lhe afirmativamente, tendo aproveitado para lhe colocar a minha máquina nas suas mãos, fazendo pose de seguida. Aí está, o meu boneco na Catedral de Santiago de Compostela!
 


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Regressado ao meu canto da Praça, bloqueio a bicicleta e dirijo-me ao interior da Catedral.
Havia duas coisas que queria fazer: o ritual do Abraço ao Apóstolo e participar na Missa do Peregrino, às 12h.

Tendo percorrido calmamente todo o interior, apreciando e contemplando as riquezas várias diante dos meus olhos, voltei a sair para, durante quarenta minutos, aguardar entrada na Porta Santa, onde cumpriria o primeiro desejo. De espírito introspectivo, entrei de coração aberto, transbordante de uma alegria estranha.

Apesar de alguma ansiedade, pois desejava ficar “ a sós” com o Discípulo - por breves momentos que fosse – para lhe entregar a minha prece…



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Foi com extrema emoção que, poisando-lhe a mão no ombro, as lágrimas furtivas se despenharam dos meus olhos… Rezei e disse-lhe, junto ao ouvido, o que trazia para lhe dizer… vindo de tão longe!

Um Acto de Fé, talvez… um Acto de Amor, com toda a certeza!

Quando saí, dei meia volta à Catedral pelo exterior, voltando a entrar, atrasado, para a Missa celebrada pelo Bispo. Na homilia, dirigiu-se, expressamente, a todos os peregrinos presentes, sobrelotando a igreja.

Depois de terminar, sentei-me num banco deixado de vago, ao fundo da nave principal e aí permaneci longos momentos, meditando, orando…
 


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Há momentos em nossas vidas

em que o tempo pára… ou parece que sim.

Regressados de um torpor meditativo, introspectivo

ficamos com a certeza de que,  como disseste

nada muda com o tempo…

Haja o que houver, nada muda com o tempo…

Somos senhores

não do tempo mas do que queremos que aconteça

enquanto ele decorre…!
 
 
 
 
 
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