25 junho 2010

Caminho de Santiago - Etapa 02: Tamel » Rubiães



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Etapa 02
06.Junho.2010
Tamel (Albergue) » Rubiães (Albergue)
Km: 51,50
Duração: 09:30H 
 
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Sofrimento…
 
Quando acordei, não tinha a noção exacta do lugar, apenas que estava só na camarata porque todos os peregrinos haviam partido já.

Desenrolado do saco-cama, preparei-me para uma etapa que eu sabia ser muito dura. Pequeno-almoço na sala comum, constituído por cereais e leite achocolatado (que ficara guardado no frigorífico da cozinha comum do albergue), mantimentos estes transportados comigo, conjuntamente com barras energéticas, pois claro!
 

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O troço entre Tamel e Ponte de Lima (perfeitamente ciclável, com apenas algumas passagens a requererem atenção e alguma técnica), desenrola-se através de um percurso deveras bucólico, intimista e cheio de verdura, composto de paisagens verdadeiramente memoráveis. Um deles, a Ponte das Tábuas, sobre o Rio Neiva, excelente local para um mergulho e umas braçadas não fosse a frescura da manhã e os muitos quilómetros que havia ainda pela frente.
 

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A parte final deste troço, ao longo da várzea sul do Rio Lima, é muito agradável, com algumas subidas e descidas suaves, até à entrada da Vila, através da luxuriante Avenida dos Plátanos, desembocando no Largo de Camões, junto à entrada da ponte romana.


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Almoço leve em esplanada composto por sandes. Reabastecimento de água, juntando-lhe o imprescindível Isostar em pó que levava em embalagem de 400g. A propósito, um conselho ditado por experiências anteriores: nunca esperem que a sede vos ataque! Utilizar Isostar ou outra bebida isotónica equivalente (de preferência, bem fria), diluindo 3 ou 4 partes num cantil de 500 ml de água; ir bebendo constantemente é o segredo, embora, consequentemente, tenham de, amiúde, procurar árvores ou arbustos…!
Ah… e esqueçam aquele subproduto que, supostamente, vos dará asas…!
 

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Enquanto almoçava, preparava-me psicologicamente para o troço que se seguiria, porventura o mais duro de todo o Caminho. Inteiramente confirmado, posteriormente, batendo todos os recordes pessoais em BTT como tendo sido o mais difícil, o mais duro em toda a minha vida!

Depois de Ponte de Lima, atravessando a ponte, o trilho é sinuoso, estreito e muito técnico com algum perigo ao longo de veredas e caminhos sombreados e encantadores.
 

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Paragem para café, reabastecimento de água e selagem da Credencial junto ao açude e viveiro de trutas de Riba Rio, Arcozelo, no sopé da montanha, antes de iniciar a famigerada subida até ao Alto da Labruja.

Trepando o monte numa ascensão penosa e, algumas vezes, capaz de provocar abatimento físico, psicológico momentâneo pela sua extensão e declive.
 

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A primeira dificuldade surge quando, para passar o Rio Labruja, foi necessário desmontar o atrelado de carga da bicicleta e transportar ambos à mão por um pontão provisório, constituído por duas estreitas e paralelas placas de metal.


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A certa altura, completamente alagado em suor e cansado, a subida pedregosa é atravessada por um troço de terra batida, permitindo descansar um pouco e oferecendo-me a oportunidade única de tomar um banho de chuveiro! É que, numa curva, uma providencial mangueira jorrava água para a berma, no cimo de um talude de um campo contíguo. Quando dei por mim, já estava completamente nu debaixo da água gelada, refrescante… divina! Saí para voltar a deleitar-me debaixo daquele jorro, desta vez fazendo um auto-retrato que, por razões de pudor, não figura no meu Álbum de Fotografias…!


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E, de novo, o trilho ascendente revela-se muito difícil onde, várias vezes com a bicicleta à mão, tive de desmontar a ExtraWeel para carregar monte acima com a bagagem pela mão ou às costas, num sobe e desce repetitivo e extenuante!


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A Subida da Morte (nome dado pelos bttistas) ou Subida da Cruz dos Franceses é marcada com uma cruz de paus unidos com uma câmara-de-ar. Bem sugestivo…!

A certa altura da íngreme e pedregosa subida, existe um cruzeiro assinalando uma emboscada montada às tropas francesas aquando das Invasões.

Ascensão demolidora, sobretudo para quem circula tão carregado - como é o caso – em que os músculos de pernas e braços ameaçam ceder a todo o momento.

O corpo rapidamente fica exausto e a força anímica sofre sobressaltos porque não sei quanto falta ainda para chegar ao cimo do monte.
 

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Naquele que eu penso ser o último trecho desta subida a pique, sento-me para descansar um pouco, reunir energias e mentalizar-me que conseguirei, sendo só uma questão de tempo. Não havia sinais de outros peregrinos, encontrava-me completamente isolado, entregue a mim mesmo e à Natureza.

- Mas que faço eu aqui? Com um dia de calor como este teria sido bem melhor uma tarde de praia, não?!

Eis quando oiço - num golpe de vento quente e sussurrado - uma voz familiar:

- Vem, Zé…! Estou cá em cima… só faltam uns quantos metros… tu consegues! O pior já passou… espero-te!

Acto contínuo, surge gravada na minha mente uma imagem recentíssima de Sabrosa, Vila Real: Riley Ben King (mais conhecido por B. B. King) que aos oitenta e cinco anos de idade, empurrado na sua cadeira de rodas, dirige-se para a entrada do palco, a fim de dar início a um concerto memorável integrado na sua actual digressão mundial! Talvez a última, talvez…

Quanta coragem e determinação…!
 

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Convencido da verdade daquela voz e da sua mensagem e rebobinando esta última imagem, ergui-me disposto a enfrentar os últimos cem metros da interminável subida. Estava nos meus limites físicos e não queria ousar ultrapassá-los.

Num rasgo de sensatez, voltei a dispensar um certo fundamentalismo, anteriormente referido - até porque os fundamentalismos só servem a espíritos anquilosados -, inventando com a ajuda do GPS uma alternativa para percorrer um caminho de terra, contornando assim o último trecho do monte até ao cume da Labruja.

Seriam mais mil e tal metros percorridos até ao topo onde, tendo alguns momentos para contemplar, admirar e usufruir da paisagem que se desenrola ante os meus olhos, respirei bem fundo…!


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Segue-se uma espectacular descida, com vistas para Romarigães e Veiga do Monte, mas algo técnica e perigosa porque estreita, íngreme e de piso muito degradado, por vezes, devido ao arrastamento de terras com as chuvas… ficando apenas as pedras no Caminho!

Novamente, a tentação downhill em luta com a sensatez.

Até chegar a S. Pedro de Rubiães, retoma-se o fôlego, sente-se o vento refrescante pela frente, numa massagem sensual no rosto, pernas e braços, descontraem-se os músculos e damos maior valor ao nosso querer…

E sentimo-nos mais felizes!
 
 

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