25 junho 2010

Caminho de Santiago - Etapa 02: Tamel » Rubiães



CPSEtp2#000 [JMB]

 


Etapa 02
06.Junho.2010
Tamel (Albergue) » Rubiães (Albergue)
Km: 51,50
Duração: 09:30H 
 
CPSEtp2#058 [JMB]CPSEtp2#059 [JMB]CPSEtp2#064 [JMB]



Sofrimento…
 
Quando acordei, não tinha a noção exacta do lugar, apenas que estava só na camarata porque todos os peregrinos haviam partido já.

Desenrolado do saco-cama, preparei-me para uma etapa que eu sabia ser muito dura. Pequeno-almoço na sala comum, constituído por cereais e leite achocolatado (que ficara guardado no frigorífico da cozinha comum do albergue), mantimentos estes transportados comigo, conjuntamente com barras energéticas, pois claro!
 

CPSEtp2#069 [JMB]CPSEtp2#071 [JMB]
 

O troço entre Tamel e Ponte de Lima (perfeitamente ciclável, com apenas algumas passagens a requererem atenção e alguma técnica), desenrola-se através de um percurso deveras bucólico, intimista e cheio de verdura, composto de paisagens verdadeiramente memoráveis. Um deles, a Ponte das Tábuas, sobre o Rio Neiva, excelente local para um mergulho e umas braçadas não fosse a frescura da manhã e os muitos quilómetros que havia ainda pela frente.
 

CPSEtp2#075 [JMB]CPSEtp2#076 [JMB]


A parte final deste troço, ao longo da várzea sul do Rio Lima, é muito agradável, com algumas subidas e descidas suaves, até à entrada da Vila, através da luxuriante Avenida dos Plátanos, desembocando no Largo de Camões, junto à entrada da ponte romana.


CPSEtp2#083 [JMB]CPSEtp2#085 [JMB]
 

Almoço leve em esplanada composto por sandes. Reabastecimento de água, juntando-lhe o imprescindível Isostar em pó que levava em embalagem de 400g. A propósito, um conselho ditado por experiências anteriores: nunca esperem que a sede vos ataque! Utilizar Isostar ou outra bebida isotónica equivalente (de preferência, bem fria), diluindo 3 ou 4 partes num cantil de 500 ml de água; ir bebendo constantemente é o segredo, embora, consequentemente, tenham de, amiúde, procurar árvores ou arbustos…!
Ah… e esqueçam aquele subproduto que, supostamente, vos dará asas…!
 

CPSEtp2#084 [JMB]CPSEtp2#088 [JMB]
 

Enquanto almoçava, preparava-me psicologicamente para o troço que se seguiria, porventura o mais duro de todo o Caminho. Inteiramente confirmado, posteriormente, batendo todos os recordes pessoais em BTT como tendo sido o mais difícil, o mais duro em toda a minha vida!

Depois de Ponte de Lima, atravessando a ponte, o trilho é sinuoso, estreito e muito técnico com algum perigo ao longo de veredas e caminhos sombreados e encantadores.
 

CPSEtp2#094 [JMB]CPSEtp2#098 [JMB]CPSEtp2#099 [JMB]
 

Paragem para café, reabastecimento de água e selagem da Credencial junto ao açude e viveiro de trutas de Riba Rio, Arcozelo, no sopé da montanha, antes de iniciar a famigerada subida até ao Alto da Labruja.

Trepando o monte numa ascensão penosa e, algumas vezes, capaz de provocar abatimento físico, psicológico momentâneo pela sua extensão e declive.
 

CPSEtp2#102 [JMB]CPSEtp2#108 [JMB]


A primeira dificuldade surge quando, para passar o Rio Labruja, foi necessário desmontar o atrelado de carga da bicicleta e transportar ambos à mão por um pontão provisório, constituído por duas estreitas e paralelas placas de metal.


CPSEtp2#109 [JMB]CPSEtp2#112 [JMB]


A certa altura, completamente alagado em suor e cansado, a subida pedregosa é atravessada por um troço de terra batida, permitindo descansar um pouco e oferecendo-me a oportunidade única de tomar um banho de chuveiro! É que, numa curva, uma providencial mangueira jorrava água para a berma, no cimo de um talude de um campo contíguo. Quando dei por mim, já estava completamente nu debaixo da água gelada, refrescante… divina! Saí para voltar a deleitar-me debaixo daquele jorro, desta vez fazendo um auto-retrato que, por razões de pudor, não figura no meu Álbum de Fotografias…!


CPSEtp2#114 [JMB]CPSEtp2#120 [JMB]


E, de novo, o trilho ascendente revela-se muito difícil onde, várias vezes com a bicicleta à mão, tive de desmontar a ExtraWeel para carregar monte acima com a bagagem pela mão ou às costas, num sobe e desce repetitivo e extenuante!


CPSEtp2#123 [JMB]CPSEtp2#124 [JMB]
 

A Subida da Morte (nome dado pelos bttistas) ou Subida da Cruz dos Franceses é marcada com uma cruz de paus unidos com uma câmara-de-ar. Bem sugestivo…!

A certa altura da íngreme e pedregosa subida, existe um cruzeiro assinalando uma emboscada montada às tropas francesas aquando das Invasões.

Ascensão demolidora, sobretudo para quem circula tão carregado - como é o caso – em que os músculos de pernas e braços ameaçam ceder a todo o momento.

O corpo rapidamente fica exausto e a força anímica sofre sobressaltos porque não sei quanto falta ainda para chegar ao cimo do monte.
 

CPSEtp2#126 [JMB]CPSEtp2#125 [JMB]
 

Naquele que eu penso ser o último trecho desta subida a pique, sento-me para descansar um pouco, reunir energias e mentalizar-me que conseguirei, sendo só uma questão de tempo. Não havia sinais de outros peregrinos, encontrava-me completamente isolado, entregue a mim mesmo e à Natureza.

- Mas que faço eu aqui? Com um dia de calor como este teria sido bem melhor uma tarde de praia, não?!

Eis quando oiço - num golpe de vento quente e sussurrado - uma voz familiar:

- Vem, Zé…! Estou cá em cima… só faltam uns quantos metros… tu consegues! O pior já passou… espero-te!

Acto contínuo, surge gravada na minha mente uma imagem recentíssima de Sabrosa, Vila Real: Riley Ben King (mais conhecido por B. B. King) que aos oitenta e cinco anos de idade, empurrado na sua cadeira de rodas, dirige-se para a entrada do palco, a fim de dar início a um concerto memorável integrado na sua actual digressão mundial! Talvez a última, talvez…

Quanta coragem e determinação…!
 

CPSEtp2#128 [JMB]CPSEtp2#129 [JMB]


Convencido da verdade daquela voz e da sua mensagem e rebobinando esta última imagem, ergui-me disposto a enfrentar os últimos cem metros da interminável subida. Estava nos meus limites físicos e não queria ousar ultrapassá-los.

Num rasgo de sensatez, voltei a dispensar um certo fundamentalismo, anteriormente referido - até porque os fundamentalismos só servem a espíritos anquilosados -, inventando com a ajuda do GPS uma alternativa para percorrer um caminho de terra, contornando assim o último trecho do monte até ao cume da Labruja.

Seriam mais mil e tal metros percorridos até ao topo onde, tendo alguns momentos para contemplar, admirar e usufruir da paisagem que se desenrola ante os meus olhos, respirei bem fundo…!


CPSEtp2#131 [JMB]CPSEtp2#134 [JMB]

 
Segue-se uma espectacular descida, com vistas para Romarigães e Veiga do Monte, mas algo técnica e perigosa porque estreita, íngreme e de piso muito degradado, por vezes, devido ao arrastamento de terras com as chuvas… ficando apenas as pedras no Caminho!

Novamente, a tentação downhill em luta com a sensatez.

Até chegar a S. Pedro de Rubiães, retoma-se o fôlego, sente-se o vento refrescante pela frente, numa massagem sensual no rosto, pernas e braços, descontraem-se os músculos e damos maior valor ao nosso querer…

E sentimo-nos mais felizes!
 
 

CPSEtp0#000 [JMB]




   Protected by Copyscape Plagiarism Tool

22 junho 2010

Caminho de Santiago – Etapa 01: Matosinhos » Porto » Tamel



CPSEtp1#000 [JMB]




Etapa 01
05.Junho.2010
Matosinhos » Porto (Sé Catedral) » Tamel (Albergue)
Km: 78,70
Duração: 11:15H

CPSEtp1#005 [JMB]CPSEtp1#007 [JMB]



Desprendimento…
 
Quisera eu – por motivos afectivos - que o primeiro selo na minha Credencial de Peregrino tivesse sido na Padeira, a Confeitaria Pereira da minha rua, mas a ausência do carimbo no estabelecimento fez com que o primeiro selo fosse mesmo o da Sé Catedral do Porto, início oficial do Caminho Português de Santiago

A manhã acordara enevoada e fresca e, no troço inicial de minha casa à Sé, o corpo revelava os efeitos de uma noite mal dormida – é sempre assim, na véspera da viagem: o espírito fica inquieto e a insónia toma forma – mas nada que um primeiro café não resolva!

Na Sé, à minha questão de quem estava no Caminho naquele dia, retive que dois ciclistas tinham partido há já algum tempo… fiquei curioso!

À parte o atravessamento da zona histórica do Porto e uma ou outra curiosidade sobejamente reconhecida, o troço até Vilarinho revela-se pouco interessante, atravessando zonas residenciais e ruas perigosamente movimentadas. Não fosse sábado e o caso seria ainda mais complicado até porque, fazendo jus ao meu opcional fundamentalismo em circular exactamente pelo percurso medieval, diversas vezes conduzi em contra-mão, algumas das quais desmontado da bicicleta e/ou pelos passeios que por aquelas horas levavam poucos transeuntes.


CPSEtp1#009 [JMB]CPSEtp1#014 [JMB]
 

Chegado a Vilarinho – quase sempre em empedrado português - o almoço foi de faca e garfo numa esplanada, pois claro! Uma providencial omeleta mista que haveria de durar até ao jantar…

Encarei esta primeira etapa com espírito de limpeza, isto é, um esvaziamento progressivo, ao longo dos quilómetros, de tudo o que de pouco importante ou de supérfluo me vinha à cabeça. Esvaziar preocupações, concentrar-me no meu próprio corpo e nos seus ritmos internos, gerindo a actividade, o cansaço, as dores musculares.

É embalado na descida para a ponte sobre o rio Ave que apanho os presumíveis dois ciclistas, atrás referidos, ultrapassando-os com um Bom Caminho! e um sorriso cúmplice. Parei na ponte para fotografar, aguardando que me alcançassem, parassem e aí travássemos conhecimento. Não! Sorriram à passagem e devolveram um Bom Camiño! Tratava-se de um casal, muito profissional, na casa dos 60. Admirável toda aquela frescura e também achei que um dia quereria ser como eles…!


CPSEtp1#020 [JMB]CPSEtp1#018 [JMB]CPSEtp1#023 [JMB]


O troço de Vilarinho a Barcelos revela-se bem mais interessante: ruralidade, caminhos em bom estado, em terra batida, paisagens abertas e veredas arborizadas.

S. Pedro de Rates (que possui Albergue de Peregrinos) é ponto obrigatório de passagem, paragem e deleite.


CPSEtp1#025 [JMB]CPSEtp1#031 [JMB]

CPSEtp1#034 [JMB]CPSEtp1#036 [JMB]


Pedra Furada, a seguir, pode ser ponto de encontro e restabelecimento de líquidos e sólidos no restaurante com o mesmo nome. O Sr. António tirar-vos-á uma fotografia por detrás do balcão e, mais tarde, haveis de figurar nos álbuns de fotografias de todos os peregrinos que por ali passam. E há-de dar-vos de conselho pernoitarem no esplêndido Albergue de Tamel, depois de Barcelos. Com cumprimentos ao Sr. Filipe, funcionário do Albergue…

Reencontrei neste local o tal casal - austríacos, de 60 e 61 anos de idade - tendo ficando eu a saber que a sua proveniência era já de Lisboa – o Caminho Real!
 

CPSEtp1#037 [JMB]CPSEtp1#038 [JMB]

CPSEtp1#040 [JMB]CPSEtp1#041 [JMB]

 
Fortes dores musculares nas pernas foram crescendo e, a meio da tarde, ameaçavam ficar contraídas, com cãibras.

Era uma etapa de iniciação, de adaptação e, embora longa, nada difícil mas o cansaço ia crescendo.

Tinha imaginado pernoitar num parque rural de campismo, próximo de Ponte de Lima mas, à medida que o tempo e os quilómetros decorriam, essa talvez não fosse a melhor opção. Puxei do conselho do Sr. António e estabeleci que iria ficar em Tamel… até para matar a curiosidade!
 

CPSEtp1#045 [JMB]CPSEtp1#048 [JMB]


Lá cheguei, já um pouco arrastado, pois embora as subidas não tivessem sido muitas nem pronunciadas, algumas havia em que mais parecia que havia dois homens a puxarem-me a bicicleta para trás…!

De facto, ia com demasiado peso na minha bicicleta que, ainda por cima - em vez de duas - tinha três rodas! Já viram uma bicicleta que, sem deixar de o ser, tem três rodas?!

Na terceira levava toda a carga, completamente autónomo e auto-suficiente: pc portátil, baterias, pilhas, carregadores, tenda, saco-cama, roupa, impermeável, calçado, alimentação básica, etc.
 

CPSEtp1#051 [JMB]CPSEtp1#054 [JMB]
 

Era minha pretensão, no final de cada etapa, ter disposição e tempo para publicar neste blogue as minhas impressões do dia, acompanhadas de fotografias, mas esqueci-me que poderia acontecer não ter rede de acesso à internet móvel! Foi o que aconteceu, quase sempre, durante toda a viagem…!

Nunca havia pernoitado num albergue e muito menos sabia que as excelentes camaratas deste e de outros… eram mistas!

Nada de mais a não ser a fantástica descoberta que o ressonar das mulheres é exactamente do mesmo tamanho e cor do dos homens! Que no conjunto e na mistura confere ao local uma sonoridade deveras interessante e polifónica, capaz de tirar o sono ao mais exausto ou dorminhoco!

Excelente o Albergue de Tamel, absolutamente recomendado… até no preço: € 3,00 (três euros)!
 
 

CPSEtp0#000 [JMB]





 Protected by Copyscape Plagiarism Tool