09 outubro 2009

O Pintor e a Minha Cidade - António Cruz



B0023P 0078


Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água. Não há dúvida, a noite vai cair. Uma noite antiga, de há cinquenta anos, onde ninguém poderá pressentir a desgrenhada noite dos nossos dias, ruidosa, insegura, desumana. Olhadas assim, com olhos fatigados, as aguarelas de que estivemos a falar escorrem, também elas, melancolia.

(Eugénio de Andrade, no livro “António Cruz, O Pintor e a Cidade”, 1997)



Continuando a remexer num baú de memórias, hoje proponho a partilha de alguém que, de forma imperceptível e improvável, teve o seu contributo para o meu desenvolvimento interior, alicerçado numa crescente sensibilidade perceptiva sobre a minha própria cidade.

António Cruz nasceu no Porto em 1907 e faleceu em 1983 – por muitos considerado o maior aguarelista português – tendo sido meu professor de Desenho, durante dois anos (anos-lectivos de 1973/74 e 1974/75), no Liceu D. Manuel II (hoje, Escola Secundária Rodrigues de Freitas), no Porto.

Mais tarde, em 1982, tive a oportunidade de conhecer e apreciar a sua obra, patente na sua penúltima exposição em vida, na Casa do Infante. Ocasião suprema para admirar e sorver – demoradamente e enternecido – a sua notável produção de uma vida. António Cruz reconheceu-me, de imediato, como tendo sido seu aluno, revelando-se um “outro homem”, bem distante daquela austeridade ostentada na sala de aulas: um homem afável e conversador.

Devo dizer que me senti perplexo com a sensibilidade transposta nas suas aguarelas, bem como as tonalidades e matizes utilizadas na maioria delas.



B0018P 002703



Irremediavelmente, Pintor do Porto envolto em neblinas, também ele conferiu à cidade um outro olhar.

Recordando os meus primeiros desenhos a carvão de que tenho memória, invariavelmente surgia na folha em branco a majestosa Ponte Luiz I e a imponente Sé Catedral, vistas da minha janela; mais tarde e a lápis de cera, naus quinhentistas subiam o Douro substituindo rabelos defronte da minha casa.

Deixo duas de tantas outras pequenas histórias em que fui protagonista, bem como reproduções de alguns dos seus trabalhos.

Publico também algumas fotografias, num contributo pessoal aproximativo – necessariamente menor – à sua obra de aguarelista maior, estupidamente esquecido pela ingratidão, sobre e com quem Manoel de Oliveira realizou um documentário em 1956, O Pintor e a Cidade (o seu primeiro filme a cores), vencedor da Harpa de Ouro do Festival de Cork, na Irlanda.

Com ele aprendi os fundamentos do desenho, as noções de perspectiva e o despir a imagem do supérfluo, conferindo-lhe vigor, fluidez e lirismo.

Esta é a minha homenagem – um acto de contrição num gesto  reconciliador – ao meu querido Cavalo Branco, o admirável António Cruz, onde quer que ele se encontre…




O Pintor e a Cidade (1956) de Manoel de Oliveira (sequência inicial)


B0023P 0170B0022P 0148


Sob a aparência de uma realidade estática que é a da cidade, o tempo torna-se no argumento da obra de António Cruz.
O tratamento da luz é que permite concluir da sua atitude face ao mundo: António Cruz duvida da realidade.

(Laura Castro, historiadora de arte)


B0023P 0164B0016P 0204


I - A Janela

- Tchiiiiuuu!... benh’aí o Cabalo Branco!

Toda a turma na sala de aulas, de pé, saúda o Professor à sua entrada.

- Bom dia!, secamente.
- Bom dia, Professor!, em uníssono.

Decorria o ano lectivo de 1973/74 no Liceu D. Manuel II.
Cavalo Branco,  alcunha por que era conhecido em todo o Liceu, o Professor de Desenho, impudicamente conotado com o regime vigente, antes de Abril. Esta alcunha tinha um sabor pejorativo e trocista, proveniente, quiçá,  do seu andar lento, compassado, ondulante e altivo –, postura austera e homem sem sorrisos, de poucas palavras e de cabelos completamente brancos.

Nunca nos lembrávamos do seu verdadeiro nome e, se nos lembrávamos, não o pronunciávamos; oficialmente, era o Senhor Professor, após Abril, passou a ser simplesmente o Prof . Nas suas costas era e sempre tinha sido o Cavalo Branco, sendo assim reconhecido junto de todos os alunos do Liceu.

Existiam algumas historietas e invenções de alunos acerca daquela personalidade tão intrigante e, aparentemente, nada simpática e, ao mesmo tempo, inconfundível no seu trato e comportamento na sala de aulas. Muitas destas eram de tudo menos de Desenho (hoje compreendo porquê…). Era para nós um ser enigmático, aparentado com algum Artista porque tinha algo de diferente que nos cativava e, ao mesmo tempo, nos amedrontava na sua presença distanciada.

Um dia, Cavalo Branco, encontrava-se já na sala aquando o toque para início de aula. Sentado à secretária, em cima do estrado, ao fundo de uma sala cheia de janelas e carteiras altas, parecidas com estiradores. Todos nós – mais de trinta – fomos entrando e, após sentados nos respectivos lugares individuais, ia-se avolumando um estranho silêncio.

Cavalo Branco tinha aberto uma das janelas de par em par e, desenhando num papel, olhava ciclicamente através daquela janela. Lá fora, a Igreja de Cedofeita, algum arvoredo e, ao fundo do largo ajardinado, a Faculdade de Farmácia.

Ao fim de algum tempo, Cavalo Branco começou a chamar os alunos, um por um – subindo estes ao estrado –, sendo convidados a verem o desenho que ia executando. Os comentários solicitados pelo Professor eram feitos em surdina, de modo que mais ninguém os pudesse escutar. Vi que os meus colegas regressavam aos seus respectivos lugares com ares de admiração e isso intrigava-me. No mais profundo dos silêncios, alguns entreolhavam-se, interrogativos.

Chegou a minha vez de subir ao seu pedestal e ver o desenho.
Olhei-o demoradamente, levantando a cabeça, perscrutando através daquela janela entreaberta. A minha expressão foi-se boquiabrindo porque o que via naquele desenho, ainda inacabado, nada mas mesmo nada tinha que ver com a realidade para além da janela!

Traços de carvão, com tanto de rudes como de firmes e precisos, num esboço em que sobressaía um qualquer cais fluvial, porto de embarque de mercadorias. Barcos a vapor expelindo fumos negros, amarrados com grossas cordas; guindastes gigantescos alinhados no recinto; e alguns contentores empilhados, ladeados por pequeninos homenzinhos. E o rio… talvez que fosse o Douro e o antigo Cais de Gaia, como eu muito bem o conhecia, pois vivia mesmo defronte dele.

Fiquei estupefacto, tendo sido aquela cena uma autêntica revelação sobre a verdadeira e desconhecida natureza daquele pequeno homem de cabelos brancos!
Não me lembro de ter comentado aquele desenho com Cavalo Branco mas que fiquei fascinado… fiquei!.

Sentia uma crescente proximidade e admiração por aquele homem desconhecido e enigmático, diante de mim, tão injustamente incompreendido por todos nós…


B0022P 0092B0024P 0021


II - Cavalo Branco, Os Interessados & Os Outros

Quando Cavalo Branco entra na sala, silencia-se o ambiente, como habitualmente, que ele não é para cantigas!

Trocam-se olhares expectantes, pois, logo que o nosso Prof  sobe ao estrado, vira-se para a turma e, encostado ao enorme e rectangular quadro verde, começa, ora com a mão esquerda, ora com a mão direita, fazendo círculos e mais círculos… Sobrepostos uns, contíguos outros.
Desenha com o giz branco, à altura dos seus cotovelos, da sua cabeça e por cima desta, num aparente e caótico amontoado de pó branco.

Enquanto o faz, o silêncio é profundo – homem de pouquíssimas palavras e hoje sei que as que nos dirigia eram plenas de sabedoria e eloquência – e a nossa perplexidade crescente à medida em que o tempo das gizadas decorre. Só entrecortado pelo que  Cavalo Branco nos diz (o que nós já sabemos de cor, de outras suas aulas) que o mundo está dividido em dois tipos de pessoas: os interessados e os interesseiros. Nunca compreendi esta frase, só anos mais tarde viria a dar-lhe razão…

Subitamente, volta-nos as costas, poisando o giz gasto pega na esponja de apagar. Continua fazendo círculos, mas agora de forma determinada, cirúrgica e consequente.
Para espanto de toda a turma, tenuemente prefigura-se aquilo a que se poderia chamar de um esboço de um cavalo…!

Perplexidade geral, bocas abertas até atrás, silêncio sepulcral porque, acabado o seu esboço, vê-se clara e distintamente o desenho de um cavalo, com as patas dianteiras levantadas, inteiramente branco…!

Ele sabia… afinal ele bem sabia que, jocosamente, o apelidavam de Cavalo Branco!

Ficamos todos – creio eu – embaraçados, profundamente envergonhados, perante esta exímia demonstração de técnica e, ao mesmo tempo, esmagados com tamanha eloquência, quase sem recurso à palavra.

Devo dizer que, a partir desta aula, a minha atitude para com Cavalo Branco iria mudar radicalmente! 



01 - Pintor António Cruz 










O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #002 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #005 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #008 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #013 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #015 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #020 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #024 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #033 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #037 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #041 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotoaguarela) #052 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #058 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #061 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #062 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #069 [JMB]

O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #057 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #064 [JMB]O Pintor e a Cidade (Fotocarvão) #070 [JMB]




Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

Sem comentários: