18 setembro 2009

No Teu Deserto




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Houve um tempo em que foi moda ir ao deserto.
Sou desse tempo…  e de outros!

No tempo da moda nunca fui; fui testemunha tangencial. Qualquer verdadeiro aventureiro tinha de ir  ao deserto mas fazer a sua travessia já é outra coisa.

Promovi algumas viagens (de forma completamente generosa e sem ganhos financeiros) para que outros pudessem ter a oportunidade de experimentar algumas das emoções e sensações por mim vividas quando para lá embarquei  de moto, pela primeira vez, no longínquo ano de 1989.



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Servem estas linhas para introduzir dois excertos desse delicioso poema - em forma de prosa - de Miguel Sousa Tavares.

No teu deserto não é um diário de viagem - longe disso, embora se cruze com Sul em A pista para Tamanrasset  - mas antes uma verdadeira e emocionante experiência interior, num curto mas eterno encontro de almas.

Pleno de doçura, sensibilidade… e poesia!







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Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais.

Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos - e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?



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Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio.



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Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia.

A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto.

Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo “nada”, eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram muito, Cláudia!

Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida.

Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes.

E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.

Eu próprio não creio que lá volte mais. A menos que tu descesses das estrelas e quisesses vir comigo outra vez.

 


(No teu deserto - Quase Romance, de Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro, 1ª Edição, Julho de 2009)




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2 comentários:

Clapotis disse...

O teu deserto, o meu deserto, o nosso deserto...

Anónimo disse...

Somos oradores sin fieles, ideólogos sin discípulos, predicador en el desierto. No hay nada detrás de nosotros; nada debajo de nosotros, que nos sostenga.
Carmen.