20 fevereiro 2009

Emboscada em Marráquexe

15 - Marrakech2006

Marráquexe quer dizer «parte depressa», porque a cidade foi edificada num planalto de emboscadas. Mas aqui os Almorávidas, berberes da Mauritânia, resolveram pôr fim à sua condição de nómadas e fundar a mais bela cidade do deserto. Nove séculos de infalíveis emboscadas se seguiram, com vítimas tão célebres como Roosevelt ou Churchill, Bogart ou Hitchcock.

01 - A Caminho de África 2003 02 - Essaouira2006

John Hopkins fora médico até aos quarenta anos. Vivera e exercera em Plymouth, Inglaterra. Espiava o mar em dias interminavelmente cinzentos, escutava o peito dos doentes, bebia chá a horas certas, olhando pela janela um horizonte de coisa alguma. Nunca se casou, nunca viajou, nunca se cansou. A rotina dos seus dias só foi quebrada com a guerra de 14-18 e um lugar de cirurgião num hospital de campanha nas trincheiras da Flandres. Curou doenças venéreas, queimaduras de frio, orifícios de balas e corpos destroçados por estilhaços de obuses. Tapou com um lençol pudico centenas de cadáveres de jovens sacrificados às mãos de uma política incompreensível e de uma estratégia militar desumana. Acabou a guerra como major do XII Exército e foi mandado para casa - onde quer que isso fosse.

05 - Zagora 1989

03 - Essaouira2006 04 - Ouarzazate2005

06 - Erfoud2003

Porém, fizera um amigo na guerra - um marroquino do Corpo Expedicionário Francês, Ahmed Ben Sahdi, atirador de elite e fiel do chá das cinco na tenda do inglês. Sem nada de verdadeiramente importante ou urgente para fazer, John Hopkins acompanhou o marroquino até Paris, vagueou com ele pelos cais do Sena, sentou-se nos cafés de Montmartre, visitou o Louvre, frequentou durante sete noites consecutivas as portas de Pigalle. Mas Paris não o seduziu e, por isso, continuou a acompanhar Ahmed no seu regresso a casa. Foram de comboio até Marselha, apanharam o barco até Essaouira e desembarcaram numa manhã de Fevereiro, sob um sol quente.

08 - Atlas2003 09 - Atlas 2005

07 - Atlas2003 11 - Atlas2003

John Hopkins viajou com Ahmed até à aldeia deste, na região de Tan-Tan, viveu na sua casa, comeu à mesa com os homens da sua família, viu Ahmed caçar com a mesma destreza com que matava alemães na guerra da Flandres. Juntos, viajaram pelo Sul - Ouarzazate, Zagora, Erfoud -, comprando madeiras e materiais para a oficina de marcenaria do pai de Ahmed.

12 - Camelos2003 13 - Camelos2003

Em Erfoud separaram-se e o inglês continuou sozinho, embarcando num autocarro decrépito que levava ovelhas no tejadilho e que saiu do deserto, atravessou o Atlas e parou à noite numa aldeia onde ele ficou a dormir num posto cameleiro, onde se abrigavam os condutores de camelos em viagem. Aí, juntou-se a uma caravana que transportava sal e entrou em Marráquexe de camelo, no dia seguinte, ao pôr do Sol do dia 4 de Abril de 1919.

16 - Porta Medina2003 18 - Praça Jamaa-El-Fna2003

John Hopkins viveu vinte e dois anos em Marráquexe, sem nunca mais ter regressado à Europa. Comprou um riad no centro da medina, com um pátio com duas oliveiras e uma fonte que corria dia e noite, e um terraço no cimo da casa de onde se avistava toda a cidade e as montanhas do Atlas, ao fundo. Casou-se com uma berbere de dezanove anos, cujo pai vendia tapetes na Praça Jamaa-El-Fna, teve oito filhos, cinco rapazes e três raparigas, todos de olhos azuis e nenhum dos quais falava inglês. Quando ele morreu, a mulher e os filhos compuseram, para ele, um poema em berbere, que mandaram gravar numa tábua de madeira e penduraram na parede por cima do seu quarto. Muitos anos depois, quando me contaram a história de John Hopkins - um só, entre centenas de estrangeiros cativos para sempre em Marráquexe -, consegui visitar o que fora o seu riad e confirmei que a tábua com o poema ainda lá estava. Um amigo marroquino, que falava berbere, traduziu o poema para árabe e de árabe para francês. De francês traduzi para português e, embora tenha consciência do quanto se terá perdido nas sucessivas traduções, esforcei-me por ser fiel ao seu espírito, imaginando-me na pele de um inglês morto em 1941 e lembrado para sempre pelas coisas que amava nesta cidade deslumbrante:

Que pena que já não possas ver mais

as muralhas vermelhas de Marráquexe

e a multidão que ao teu lado caminha

na porta de Essaouira

Que pena que já não vejas

os jacarandás, as roseiras, as buganvílias dos jardins

que já não oiças o som da água nas fontes

que não escutes o silêncio dos pátios

que não vejas as estrelas nos terraços

Que pena que já não possas alisar com a mão

os azulejos do Palácio Bahia

Que pena que já não vejas todas

as coisas que amávamos

que não caminhes, não sintas, não te percas

em Marráquexe - a mais bela das cidades do Sul.

10 - Atlas2005 26 - Pista Aït-Ben-Hadou2003

22 - Aït-Ben-Hadou2003

23 - Aït-Ben-Hadou2003

24 - Aït-Ben-Hadou2003

30 - Vale do Dadès2006

Eu cheguei de carro, ou melhor, de jeep, como convém aos tempos de hoje. Fiz o mesmo caminho que o inglês, só que mais depressa. Vindo do Sul, apanhei a pista que começa em Ait-Ben-Adou e vai sair ao pé da que foi a imponente casbah do sultão de Marráquexe. Atravessámos rios a vau, aldeias adormecidas à hora do calor, subimos pela encosta de uma montanha ao lado de um abismo, esforçando-nos para não o olhar, cruzámo-nos com rebanhos de ovelhas, com burros carregados de lenha de azevinho, com uma miúda que nos atirou um punhado de rosas com um cheiro como nunca sentira antes. Trepámos ao Atlas, que estava coberto de neve no cimo, mas já com o degelo fazendo longas colunas de água escorregar pelos flancos da montanha para formarem cá em baixo os oueds que depois irão desembocar no extenso e fértil oásis do vale do Draa. Descido o Atlas, numa interminável sucessão de ziguezagues, entrámos no planalto que anuncia Marráquexe. Um erro de orientação levou-nos a entrar na cidade pela porta errada, ao cair da noite. De repente, como se tivéssemos mergulhado sem aviso num filme dos anos cinquenta, fomos envolvidos por uma multidão esfuziante de peões, bicicletas, motoretas, carroças, burros, camelos, ovelhas, todo o souk que transbordava de agitação, como sempre sucede ao fim do dia.

49 - Vale do Draa1989 50 - Vale do Draa1989

29 - Vale do Dadès2006 27 - Pista Aït-Ben-Hadou2003

«Cá está outra vez a cidade da alegria» - foi a primeira coisa que pensei. Como é bom voltar a Marráquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em ruas onde se conquista, metro a metro, o espaço disputado aos peões, burros, carroças, motos, bicicletas, carros. Uma corrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem - de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. Metade da cidade está atrás dos balcões das lojas de rés-do-chão e a outra metade circula ao longo delas. Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol se põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins de dia.

48 - Vale do Draa1989 21 - Praça Jamaa-El-Fna2003

20 - Praça Jamaa-El-Fna2003 19 - Praça Jamaa-El-Fna2003

Não tenho pressa, Marráquexe não é para ser vista em ritmo de excursão, com programa de visitas a cumprir. Conheço alguns segredos escondidos no souk, portas altíssimas de pesada madeira de cedro virgem que abrem para palácios inimagináveis onde tudo está na mesma como estaria há duzentos anos, pátios de casas no meio do caos das ruelas onde, em vez do ruído que se espera ouvir das ruas lá de fora, só se escuta o som da água a correr num tanque em cuja superfície flutuam pétalas de rosa. Sei que mais tarde me sentarei num pátio assim, alguém trará um copo de vinho, uma travessa de tagia marrakchi, finas fatias de galinha cozida ao vapor com limão e azeitonas, e depois trarão uma bacia de água para lavar as mãos. Conversarei em francês com o dono da casa, discutindo a influência dos astros nos negócios da vida, porque aqui nasceu a astrologia, e subiremos ao terraço - de todos os terraços se avista a cidade porque as casas são todas da mesma altura - e na noite densa de estrelas procuraremos no céu de Marráquexe o cometa Hall-Bopp que indica o nordeste.

31 - Medina2003 17 - Praça Jamaa-El-Fna2003

De manhã cedo, nos jardins perfumados do Mamounia, vou ler o jornal com o nome mais bonito do mundo - Le Matin du Sahara -, caminharei na alameda das oliveiras em cujos troncos majestosos se enrolam as buganvílias em flor, irei até ao antigo pavilhão de caça conversar com o vendedor de tapetes, «vraiment ton ami», e, como num filme, encostar-me-ei ao banco de trás de uma caleche de pneus de borracha, deslizando sem ruído e sem destino certo pelas ruas da cidade vermelha, embalado pelo som do monólogo do condutor zarolho da caleche com o seu velho cavalo manco. Pararemos na loja de especiarias junto aos Túmulos Saadianos, escolhendo, de entre as centenas de frascos de todas as cores existentes, um chá para as enxaquecas e outro para o mal de vivre judaico-cristão.

36 - Caleche2006 35 - Praça Jamaa-El-Fna2006

Eu, que nunca fumo charutos de manhã, vou acender então um Hemingway Short Stories, em homenagem a esse seu outro contemporâneo anglo-saxónico, Winston Spencer Churchill - um da grande linhagem dos loucos de Marráquexe.

Em plena guerra, em 1943, a Inglaterra e os Estados Unidos tinham de se reunir ao mais alto nível para estabelecer os planos da operação conjunta que levaria ao desembarque na Normandia e à derrota do nazismo. «Onde nos poderemos encontrar?», excluindo a Inglaterra por razões de segurança, perguntou o presidente Roosevelt ao «Premier» Churchill. «Em Marráquexe», foi a resposta de Churchill. O inglês ficou no Mamounia, como habitualmente - era hóspede frequente antes da guerra e continuou a sê-lo depois dela. O americano ficou em casa da sua compatriota Mrs. Taylor, uma herdeira riquíssima que um dia desembarcara no seu iate em Safi e partira para Marráquexe montada num burro, 300 quilómetros de caminho, para comprar um terreno de quatro hectares na parte colonial da cidade e aí construir um dos ex-líbris de Marráquexe: a Villa Taylor. Terminada a cimeira de três dias, F. D. R. regressou a Washington, mas Churchill, apesar da condução da guerra que o reclamava em Londres, deixou-se ficar mais uma semana no Mamounia, a pintar. «Tenho impressão», escreveu F. D. R. ao cônsul americano em Marráquexe, «que, se tivesse também sido dotado para a pintura, teria ficado aí também com Mr. Churchill.»

34 - Praça Jamaa-El-Fna2006

O Mamounia, talvez o hotel mais bonito do mundo, foi a chave da fama internacional de Marráquexe. Construído em 1929 por Henri Prost e Antoine Marchisio, restaurado há uma dúzia de anos, o hotel e os seus fantásticos jardins conheceram sucessivas gerações de beautiful people: pintores, escritores, políticos, actrizes, costureiros, arquitectos. Maurice Chevalier, Edith Piaf, Josephine Baker, Gary Cooper, Humphrey Bogart, Paul Getty, James Stewart, Alfred Hitchcock, Marlene Dietrich, Ingrid Bergman, Chaplin, Orson Welles, Aga Khan, reis, raínhas, príncipes, princesas. You name it. Em plena guerra, Pierre Balmain dava bailes de vestido comprido e champanhe francês para senhoras que tinham atravessado o Atlântico em guerra ou escapado da França de Vichy, e o sultão Pacha Thami Glaoui organizava memoráveis parties de chasse nos contrafortes do Atlas. Veio depois a época das villas - dos Krupp, de Yves Saint-Laurent, de Alain Delon, de Isabelle Adjani e até de Jackie Kennedy, a quem o rei deu uma villa onde ela mal pôs os pés.

32 - Medina2003

40 - Alto Atlas2005

Tudo começara no tempo do Protectorado Francês, sob as instruções de Lyautey, em 1914. Chamado para estudar o urbanismo das cidades imperiais marroquinas - Fez, Casablanca, Rabat, Marráquexe -, Henri Prost concebeu uma solução tipicamente colonial mas que acabaria por se revelar decisiva: separar a população árabe da francesa. Assim, e deixando as medinas tal qual estavam e os marroquinos entregues a si mesmos, ele ocupou-se em desenhar, do lado de fora dos muros das medinas, as «cidades europeias». Avenidas largas e rasgadas, praças desafogadas, uma profusão de árvores por todo o lado, de oliveiras e laranjeiras a buganvílias e jacarandás importados da América do Sul. As ideias de Prost, que seriam depois aplicadas na própria metrópole, acabaram por garantir a preservação do núcleo histórico das cidades imperiais, permitindo ao mesmo tempo o nascimento de cidades modernas e integradas na arquitectura e na paisagem locais, paredes meias com os quarteirões árabes. Mas, se é verdade que foi fora de muralhas e na «zona europeia» que os milionários e as estrelas de cinema construíram as suas sumptuosas e deslumbrantes villas do palmeiral de Marráquexe, não é menos verdade que os verdadeiros amantes da cidade optaram pelos riads, em pleno souk, no coração secular de Marráquexe.

Tudo começara ainda antes, no ano cristão de 1070, o ano 462 da Hégira. Abou Bekr ben Omar e Yousef ben Tachfim, berberes do povo dos Lemtouna Sarihaja, ou Almorávidas - do nome da dinastia que fundariam -, tinham acabado de conquistar aos infiéis a cidade de Sijilmassa, o mais importante entreposto de caravanas entre o Sahel e o Sahara.

28 - Pista Aït-Ben-Hadou2003 43 - Gargantas do Todra2003

Atravessaram o Sousse e o Atlas e chegaram ao grande planalto onde os sheiks das tribos almorávidas e os nobres de Aghmat tinham escolhido fundar uma nova cidade, suficientemente grande para acolher todas as suas tendas, o seu exército e a sua manada de camelos. Foi num dia de Maio, com um horizonte límpido que deixava avistar ainda ao longe as últimas neves dos picos do Atlas, que eles decidiram que «o vale do Nfiss será o seu jardim, as terras de Doukkala o seu celeiro e os guerreiros montanheses do Atlas prestarão aqui vassalagem ao seu chefe». Assim nasceu Marráquexe, nome que provém de uma expressão masmuda que significa «parte depressa», porque a planície era lugar de emboscada certa. Ali e então, este povo berbere, vindo das terras desoladas da Mauritânia, encontrou o seu jardim de Alá e cessou a sua condição de nómada.

46 - Reg Erg Chebbi2003 47 - Yasmina Erg Chebbi2006

Nos séculos que se seguiram, trocando de mãos entre os Almorávidas, os Almóadas, os Saadianos e os Alouitas, até à chegada dos franceses em 1912 e à independência do Reino de Marrocos, em 1956, Marráquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que a sombra do Sol durante o dia ou da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: «Que pena que já não possas ver mais ... a mais bela das cidades do Sul.»

Parte depressa. Vive devagar e parte depressa. Sacode essa pele a que chamamos nostalgia nas ruas desta cidade da alegria. Sacode a poeira do caminho nos banhos do hamman, entre o vapor que escorre das paredes de mármore, à pálida luz do candelabro que torna tudo sensual e fluido, senta-te à roda dos pátios nos restaurantes encantados da medina - o Stylia, o Dar Marjana, o Dar ai Yacout -, come a pastilla, o folhado de pombo com canela, a tagine de poulet, o couscous de borrego, com um vinho de areia suave e perfumado, ouve o som de uma cítara berbere, que parece uma coisa familiar e íntima e todavia é tão diferente de tudo o que já ouvimos.

38 - Palácio Bahia2003 39 - Palácio Bahia2003

E em cada sala do Palácio Bahia, quando passares a mão sobre os azulejos, só para te certificares de que tanta beleza não é irreal, quando vires as ruas carregadas do azul de tucano dos jacarandás, lembra-te então de John Hopkins, «El lnglés», e de todos os outros ingleses, os deslavados ingleses, os infelizes europeus, os nostálgicos dos espaços vazios, dos silêncios, os que ignoram a consistência da água, da areia, das pedras, os que vivem depressa e morrem lentamente.

42 - Dunas Erg Chebbi2003

Se eu mandasse, mandava pôr uma placa em cada uma das entradas da cidade e nelas escreveria: «Marráquexe: vive devagar e parte depressa.» Porque Marráquexe é uma emboscada.

41 - Crepúsculo em Erg Chebbi2006

44 - Nascente em Erg Chebbi2003

45 - Poente em Erg Chebbi2006

(Emboscada em Marráquexe in Sul, Viagens de Miguel Sousa Tavares ©1998, Oficina do Livro, Lisboa, Edição ©2004, 9ª Tiragem: Março, 2007)

(Fotos de JoséManuelBarbosa©1989 ©2003 ©2005 ©2006, anteriormente publicadas em http://erg-chebbi.spaces.live.com e extraídas dos Álbuns: “Marrocos... Aventura & Encantamento (1989)”, “Marrocos... A Expedição (2003)”, “Marrocos... Uma Viagem do Espírito (2005) e “Marrocos... Um dia voltarei...! (2006)”)

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

Sem comentários: