28 fevereiro 2009

Os Fantasmas

Os Fantasmas (Klaus Schulze)

 

Semi-obscuridade

Som planante rente ao chão

Cósmico na essência

Patamar do subconsciente

Batida suave

E leve

Prolongamento do espírito

Fantasmagórico

Ténue recordação

Dança-ritual

- Os fantasmas andam à solta! –

Nas margens do rio

Longo e tenebroso

- E os fantasmas andam à solta!

Escuta bem esta canção…

Bem-vindo ao mundo da obscuridade

Perversão debaixo do escuro

Perdição na imensidão

Santidade  do desejo

Corpóreo ritual

 

(Inspirado em Shine On You Crazy Diamond de Pink Floyd)

 

 

 

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

 

Ensaiar o Crepúsculo I #011, #012

 

 

 

Ensaiar o Crepúsculo I #011

 

 

 

 

Ensaiar o Crepúsculo I #012

 

 

 

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

27 fevereiro 2009

26 fevereiro 2009

A Vida é um rio de insondáveis meandros…

A Vida é um rio de insondáveis meandros #001 

Depois desta conversa em hora-e-meia mantida

Perdidos em ruas da cidade-à-noite

Debruçamo-nos num mira-Douro nocturno

Envoltos por pequeninas luzes dispersas.

 A Vida é um rio de insondáveis meandros #002

Entre nós e o marítimo horizonte longínquo

Trémulos de uma vaga brisa fluvial

Um rio correndo devagar

- dizem que é D’Ouro.

Talvez a vida fluindo em farrapos diante de nossos olhos

E nós, aqui

Sem que-fazer

Acomodados

Na margem sobranceiros hibernamos perdidos

- até que a Primavera chegue?

 

A Vida é um rio de insondáveis meandros #003

(No leito do rio repousam naufragados

barcos de papel e de sonho)

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

 

23 fevereiro 2009

Lágrimas de Suor e Sangue Talvez…

Lágrimas de Suor e Sangue Talvez...

Do sorriso daquele beijo

Do enlevo de sua mão na minha

Da minha perdida no negrume do seu cabelo

O inesperado abraço se desfez urgentíssimo…

 

 

Transformo esse apertado abraço num longo murmúrio

Em que os corpos desnudados se entreabrem crus num voo de pássaros

Entregando-se lacrimejantes numa simbiose de antigas secretas paixões

Timbrado no meu o suor do seu corpo

Do cheiro exalado – perturbador e urgente – exigindo consumação

Permanece despertado o desejo sublime adiado…

 

 

Assim a espera se prolonga

Adiadas que são as fontes

O sangue talvez surja

Noutro lugar em que o tempo se afaste de nós…

 

 

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape

 

22 fevereiro 2009

José Megre por… José Megre

José Megre (26/3/1942 – 21/2/2009)

No dia seguinte… um lamento e uma simples e sentida homenagem a um homem marcante.

A Aventura continua em cada um de nós…!

José Megre #01

O Todo-o-Terreno em Portugal

Na sequência do êxito que constituiu a organização do Raid Portugal em 1986 e do Rali Maratona de Portalegre em 1987, que até à data foram sem dúvida os pontos mais altos desta actividade no nosso país, será curioso tentar explicar a evolução desta disciplina em Portugal ao longo dos últimos anos.

Como um dos intervenientes neste processo no nosso País, poderei dizer que para mim (e muitas outras pessoas) tudo terá começado em Angola, onde pela primeira vez conduzi em todo-o-terreno Jipes, Unimogs e Berliets militares, quase sempre em situações dificílimas de lama e pisos deploráveis, às vezes mesmo à noite, e inclusive nas famosas caçadas de farolim, onde não se acendiam as luzes dos carros, apenas se utilizando de vez em quando um farol dirigido por uma outra pessoa que apontava o caminho a seguir ao condutor. O primeiro deserto que vi foi o de Moçâmedes, que atravessei num Mini Moke em 1968.

Depois foi a minha ligação à preparação e pilotagem de carros de competição Nissan (ex-Datsun), para ralis e depois corridas, e finalmente o meu primeiro rali como piloto, o Rali de Portugal de 1975, onde conheci e fiquei amigo de Shekhar Mehta e de Jean Claude Bertrand (o avô do Paris-Dakar) com quem formei uma equipa, a que se juntou também Pedro Cortez, todos com Datsun (dois 260Z e dois Violet 160J). É aqui que se iniciam os nossos primeiros passos para a participação nos Ralis Africanos, o que só viria a verificar-se a partir de 1982.

Também nesse mesmo ano, 1975, o meu amigo António Portela de Morais (infelizmente já desaparecido) convenceu-me durante um almoço, a experimentar o todo-o-terreno em moto, numa Kawasaki 250 que me emprestou num fim-de-semana.

Nesse dia muita coisa mudou na minha vida. Cheguei a casa coberto de lama e encharcada até aos ossos, pois choveu desalmadamente a meio do passeio que demos na Serra de Sintra, mas satisfeitíssimo e realizado com a experiência. “Aquilo era realmente o máximo!... “  

Evasão na Natureza, esforço físico e um enorme gozo duma condução difícil, variada e cheia de sensações, peripécias, dificuldades, necessidade de avaliar o terreno e de pensar na melhor maneira de atacar os vários obstáculos. Enfim, um “anti-stress” perfeito!

Comprei rapidamente uma Yamaha 175 e juntei-me ao grupo que, nessa altura, era formado pelo Tonicho Portela de Morais, Mêquêpê, Fernando Leite de Castro, Manuel Costa Félix, a que se juntaram, mais tarde, muitos outros, entre eles, o Luís Lourenço, o Sebastião Sanfins, o José Sequeira, o Carlos Reis de Carvalho, o Manuel Romão. Foi realmente o início do todo-o-terreno em Portugal conseguido, para nós, através das motos.

Rapidamente muitos outros grupos se foram formando, “chocando-se” às vezes, nos trilhos da Serra de Sintra, um dos nossos terrenos preferidos. Chegaram a juntar-se mais de cem motos de todos os tipos e categorias! E isto, ainda hoje se verifica, com outras pessoas, claro, mas quase sempre nos mesmos locais.

A nossa outra “catedral” do T. T. foi a Costa da Caparica e, na sequência, a Lagoa de Albufeira, o Meco e Sesimbra. Lembro-me que uma vez descobrimos as filmagens do «Boys of Brazil», onde se utilizou a Lagoa de Albufeira a “fingir” de Paraguai! Só de moto conseguimos aproximar-nos.

As motos iam evoluindo, quase todas com matrícula estrangeira ou sem ela, e apareceram cada vez mais entusiastas: José Maria Sá Chaves, Vasco Pinto Basto, irmãos Nogueira da Silva, Tomás Meio Breyner e outras estrelas do Motocross e Enduro Nacional (Jorge Leite, por exemplo, andava nessa altura numa 50 cc!).

Os mais novos ensinavam os mais velhos e todos íamos melhorando o nosso nível de pilotagem. Notava-se assim uma grande entreajuda entre os participantes destes passeios “selvagens”.

Tanto se progrediu e desenvolveu este desporto que, salvo erro, em Maio de 79 o José Maria Sá Chaves e outros entusiastas de que não me recordo o nome, organizaram a primeira prova de moto T. T. em Portugal: o Enduro das duas Praias (Guincho-Abano) passando pela Serra de Sintra, em que participaram quase todos aqueles que até ali se tinham limitado a passeios entre amigos ou outro tipo de provas como o motocross. Foi a minha estreia em competição todo-o-terreno.

Daí até ao Enduro da Figueira da Foz (2 dias) organizado pelo José Mendonça foi um salto. Depois, os campeonatos oficiais. Aí, os mais velhos voltaram às origens pois a resistência física necessária a uma prova de enduro não permite veleidades, infelizmente.

Sul de Marrocos 2005

Os Ralis Aventura – o Paris-Dakar

Entretanto, e na sequência do Rali de Portugal, nesse ano de 75 comecei a ficar fascinado pelos Ralis-Aventura, a maioria deles disputados em África. Jean Claude Bertrand insistiu muito para que eu fizesse o 1.° Abidjan-Nice mas as minhas fracas possibilidades financeiras não me permitiam entrar com um carro de duas rodas motrizes (o Datsun 240Z era o único que tinha) e não havia muitos Jeeps à venda em Portugal nessa altura, à excepção dos Land Rover e o Portaro, este ainda nos seus primeiros passos.

Optei por entrar no Rali de Marrocos com o Manuel Romão, em 1976, e no Acrópole (Grécia) com o João Teixeira Gomes, em 1977, onde alarguei os meus conhecimentos com vários pilotos estrangeiros, alguns africanos, outros europeus. Sem estes contactos não me teria sido possível evoluir até ao Dakar.

Assim, cada vez me ia aproximando mais de África e, particularmente em Marrocos, tivemos uma experiência fantástica, tendo sido apoiados pelo Luís Sales Grade e o Hipólito Pires, na altura responsáveis pela Portaro que então se iniciava, e que patrocinou o meu Datsun 240Z!

Mas a situação económica que se vivia em Portugal não me permitia evoluir para onde queria (Abidjan-Nice, Paris-Dakar, Safari). Por isso deixei de correr em fins de 77, à espera de melhores dias. Voltei-me com mais força para as motos e aproveitei para viajar um bocado pela Ásia, Américas e África seguindo sempre a evolução dos Ralis africanos.

E, com o lançamento da UMM em Portugal pela mão dos irmãos Batista da Silva, meus amigos de longa data, resolvi tentar convencê-los à participação no Paris-Dakar que, nesse ano (1980-1981), estava já a ocupar o lugar das provas concebidas pelo Jean Claude Bertrand, que entretanto tentara uma prova na América que acabou por não se realizar.

Na altura eu estava ligado a uma empresa que me fazia deslocar várias vezes a França onde o “Dakar” tinha um impacto extraordinário. Entre os grandes especialistas dessa prova, desde a primeira edição, contava-se Patrick Zaniroli, que tanto eu como o Manuel Romão conhecíamos, por ter sido nosso patrocinador no Marrocos de 76, pois na altura “Zani” trabalhava para uma agência de viagens envolvida no Rali.

Telefonámos-lhe e fizemos-lhe várias perguntas. E, em meados de 81, Patrick veio inclusivamente a Portugal experimentar o Portaro e o UMM numa viagem de ensaios organizada por nós, em colaboração com as duas Empresas. Zaniroli era jornalista da “Auto Verte” e fundador do Clube Auto Verte Francês, sendo por isso um dos grandes especialistas da modalidade, já com um bom palmarés do Dakar.

Daí até à nossa primeira participação no famoso Paris-Dakar (Janeiro de 82) foi um salto, pois os irmãos Batista da Silva confiaram-me três viaturas, material e apoio financeiro para a prova. A Tabaqueira apoiou também a nossa iniciativa. Pedro Cortez, piloto Datsun-Nissan desde 1970, guiou o segundo UMM, acompanhado do nosso amigo e mecânico de competição, também da Nissan, Joaquim Miranda. Diogo Amado (da UMM) seguiu com Pedro Vilas Boas no carro de Assistência. Todos chegámos ao fim.

E é depois disto que começa a nascer a ideia de formar um Clube ...

Ronda dos Castelos 1989 - Clube Todo-o-Terreno

O Clube Todo-o-Terreno

Manuel Romão, que me acompanhou nessa primeira participação, era, ao tempo, um membro da Comissão Desportiva Nacional e tinha um grande espírito associativo (eu só tinha sido co-fundador dum “clube de bicicletas” no Estoril, o “10 à Hora”, aos meus 13 anos, com o Mário Figueiredo, o Gonçalo Faria e o António Carlos Oliveira.

Ao apercebermo-nos da enorme evolução e impacto do todo-o-terreno, pensámos na fundação de um Clube desta especialidade em Portugal, para Jipes e Motos. Carlos Reis de Carvalho apresentou-nos o Pedro Salgado, interessado em Jipes antigos e, assim, com uma dezena de entusiastas, alguns Dakaristas como Pedro Vilas Boas, Pedro Cortez, João Tojal e Diogo Amado, a que se juntaram Eduardo Lyon de Castro, António Nunes, Luís Lourenço e Eduardo Pichel, formámos o Clube Todo-o-Terreno que primeiro se chamou Clube Verde mas que, para evitar mal-entendidos, passou rapidamente à sua designação actual.

A Direcção do Clube era composta por Manuel Romão, Pedro Salgado (Vice-Presidentes) e eu próprio como Presidente.

Assim, em Maio de 82, organizámos o primeiro Passeio-Raid com a duração de um dia na nossa já bem conhecida zona da Lagoa de Albufeira-Sesimbra. Para isso fizemos divulgar a nossa iniciativa nos jornais “Motor” e “AutoSport”. Apareceram cerca de 30 Jipes e 15 Motos. Tudo correu bem, mas desde logo verificámos que só colocando um obstáculo difícil para todos passarem, conseguíamos que as pessoas se juntassem, falassem umas com as outras, enfim, vibrassem um bocado.

Seguiram-se outras iniciativas: uma ligação pela praia Tróia-Sines que foi espectacular, mas que nos levou tempo a pôr em marcha, uma vez que, para quase todos, a condução na areia era desconhecida. Depois, uma concentração de Jipes antigos e ainda, nesse ano, um Raid na Serra da Estrela. O Clube acabou por ser legalizado em início de 1984.

I Raid Portugal 1987 #01

A evolução

Entretanto, Thierry Sabine, que nos tinha proposto sermos seus representantes em Portugal, viera a Portugal a nosso convite, em Junho de 82, para promover a sua prova. Organizámos um cocktail para a Imprensa no “Bananas”, em Lisboa, e uma sessão aberta numa sala de espectáculos. Thierry levou para Paris nove inscrições para o Dakar de 83: 4 UMM e 5 Portaro. O Pedro Cortez e eu iríamos guiar os dois UMM protótipos, com motor PRV V6 a gasolina. João Teixeira Gomes e Jorge Mira Amaral seriam os nossos navegadores. Pela segunda vez consecutiva, chegámos todos ao fim classificados, inclusive, os dois carros de Assistência onde se deslocaram, entre outros, Carlos Barbosa (Tucha) e Vítor Paula Cardoso.

Mas, como não há duas sem três, a UMM decidiu voltar connosco ao Dakar de 84. Desta vez, optei por Pedro Vilas Boas como meu navegador, não só pela amizade e admiração que então eu já sentia por ele mas também pela tenacidade, determinação, espírito de sacrifício e dotes de orientação de que já me havia dado provas. Para além disto, o Pedro tinha participado, com grande sucesso, no Camel Trophy de 83 classificando-se em 2.° lugar.

Estava encontrada a dupla que iria continuar até à organização da I Expedição Transahariana, ainda em 1984, à Fundação do Clube Aventura e à realização do Raid Portugal em 1986 e 87 e do Rali Maratona de Portalegre em 1987, que constituíram, como dissemos, um reconhecido êxito.

Mas, na sequência deste historial, e regressando ao Clube Todo-o-Terreno, há que registar alguns factos importantes. Efectivamente, a evolução do Clube ficou a dever-se ao esforço pessoal de alguns entusiastas que devem ser aqui referidos.

Eduardo Lyon de Castro, um grande conhecedor da Serra de Sintra, e também director do Clube, lança na zona, os passeios que obtiveram maior número de concorrentes na altura, e os primeiros Road-Books (cadernos de itinerário).

Nos passeios em Sintra, e normalmente em dias de aniversário (Maio) a Direcção do Clube organizou provas de trial nos terrenos interiores do Autódromo do Estoril.

Pedro Vilas Boas, já nessa altura um especialista e entusiasta do rio Guadiana, organiza, em finais de 83, um passeio de três dias ao longo deste rio, com Road-Books, cartas geográficas e acampamento. Foi bastante ajudado pelos “Luíses” Lourenço, Azevedo e Santos. Seguiu-se uma 2ª edição em 1984.

António Nunes e Eduardo Lyon de Castro montam o Tróia-Algarve com a duração de 2/3 dias que também foi chamado Tróia-Lagos ou Raid ao Algarve.

Manuel Romão (Vice-Presidente do Clube) e Luís Lourenço empenham-se fortemente na organização do Enduro de Palmela, uma prova que obteve grande sucesso mas que não se repetiu, até porque, oficialmente, a organização era de outro Clube.

Pedro Salgado e Fialho Marcelino põem de pé o Tomar-Viseu em Abril de 1986 conseguindo o maior número de concorrentes até essa data (cerca de 100).

Eduardo Pichel, Pedro Barbosa e outros entusiastas e responsáveis do Clube no Norte do País montam em 1983 um dos mais espectaculares passeios de sempre no Gerês.

Mais recentemente, Vasco Salter Cid, Pereira Gomes, José Jardim de Oliveira, Ramos Dias, Luís Santos, Luís Azevedo, Alberto Sousa Guedes e Agostinho Fontes de Meio, entre outros, organizaram raids e passeios de vários tipos ao longo do País, e, hoje em dia, a dinâmica do Clube Todo-o-Terreno passa fundamentalmente por eles e Fialho Marcelino, com Manuel Romão como Presidente.

 

II Raid Portugal 1988 #01

I Raid Portugal 1987 #04 

II Raid Portugal 1988 #03

O Clube Aventura

O Clube Aventura nasce, como dissemos, na sequência do Paris-Dakar de 84, à semelhança do que tinha acontecido com a edição de 82 com o Clube Todo-o-Terreno.

A minha ligação e amizade a Pedro Vilas Boas e Manuel Romão foram respectivamente a base das duas associações de que fui fundador e sócio nº 1.

A nossa ideia, quando formámos o Clube Todo-o-Terreno, foi encontrar delegados regionais em todo o País e solicitar a sua ajuda para a organização das provas, o que é bastante diferente da maneira de actuar do Clube Aventura onde a organização é fundamentalmente centralizada em duas pessoas (Megre-Vilas Boas) com auxílios locais e apoios efectivos de vários entusiastas que vão formando uma equipa organizativa bastante homogénea, e que se mantém em todas as provas.

Foram e continuam a ser bases dessa equipa pessoas como Luís Lourenço (que recentemente optou por participar como piloto), José Oliveira Monteiro, António Latino Tavares, meu navegador nos Raids Nacionais, e um grande conhecedor da leitura de cartas geográficas, João Rangel e Pedro Masson, os nossos médicos, Parente dos Santos, Manuel Mota, João Pedro Sousa e o nosso “jovem” secretariado, Rita Marques dos Santos, Luísa Ferreira Lopes, Inês Galvão Teles, Cláudia Cantante Mota e, mais recentemente, João Paulo Lopes (ex-Federação de Motociclismo). Para além de Pelejão Marques (Imprensa-Raid Portugal) e Alexandre Sanfins (foto-cine) Manuel Ryder da Costa, João Rodrigues, Pedro Stocker, Pedro Barreiros, António José Almeida, Jaime Santos, Vasconcelos Correia, João Pedro Pinho, Rui Oliveira, Ana e José Raul Pereira constituem os elementos mais activos da equipa que esperamos venha a alargar-se em 1988.

O Clube Aventura é a evolução natural do todo-o-terreno em Portugal. Do passeio passámos à competição, dos Raids Nacionais, passámos a ir a África, ao deserto do Sahara, na Argélia.

Deserto do Sahara 2003

As Expedições

A Expedição Transahariana foi a nossa primeira ideia e a nossa primeira organização em 1984, antes mesmo de termos constituído legalmente o clube. O Raid Portugal só teve lugar quase dois anos depois, em 1986. E, só em 1987 nos atirámos para o Rali Maratona de Portalegre, um dos nossos três sonhos dourados, e que é a competição pura através dos nossos montes alentejanos. Uma prova onde o Homem é mais importante que a máquina, percurso secreto, e onde várias dificuldades se apresentam a todos os concorrentes, postos em igualdade como em nenhuma outra prova automóvel ou moto. É a pilotagem do improviso, do calculismo, da determinação, da aventura, do esforço físico, da Natureza.

O Clube Aventura foi oficialmente formado em Março de 1986 tendo como grupo fundador, Luís Lourenço, Pedro Vilas Boas e eu próprio. Mas as actividades iniciaram-se, como dissemos, em 1984 com a 1ª  Expedição ao Deserto do Sahara em que participaram, para além do Pedro e do Luís, José Oliveira Monteiro e Alexandre Sanfins. Foi a viagem de preparação, reconhecimento e avaliação das nossas capacidades como organizadores. Pedro Vilas Boas foi e continua a ser o guia e o responsável deste tipo de realizações do Clube. Em 85 já levámos 10 carros e duas motos até ao Sul da Argélia. Em 86, a 3ª edição atingiu Djanet e andou muito fora das pistas. Em 1987 o número de inscrições aumentou significativamente (18 4x4 e 5 motos) e uma equipa da RTP acompanhou a expedição.

Nesta série que denominámos África-Aventura, já tentámos incluir, por duas vezes, a Guiné-Bissau. Por razões que nos transcenderam, adiámos essa viagem que, no entanto, tanto o Pedro como eu já fizemos mais de uma vez, até muito próximo, pois a nossa rota terminava em Dakar.

Para além desta, temos nas nossas ideias chegar a Goa, a Nairobi, e mais recentemente, Macau. Sentimo-nos à vontade nestas iniciativas. Bastará que consigamos o tempo e os apoios financeiros.

I Raid Portugal 1987 #02  I Raid Portugal 1987 #03

O Raid Portugal

O Raid Portugal foi efectivamente a nossa grande invenção, que está ainda a encontrar o seu equilíbrio: não é fácil agradar a tantos, misturar turismo com aventura, competição com cultura, organização com improviso. A prova, considerada ilegal em 86, é a única do género que agora está federada. Tem muitas características totalmente originais, onde a competição é estabelecida pelos controlos de navegação, a leitura de cartas geográficas, a transposição de obstáculos mais ou menos difíceis, a resistência e a determinação.

Noutro capítulo deste livro Pedro Vilas Boas escreve mais pormenorizadamente a história do Raid. É uma prova que tem muito dele e de mim próprio e para a qual estamos a tentar encontrar um compromisso que agrade à maioria.

E o compromisso começa por ter de ser encontrado por nós, inventores deste Raid que tanto tem dado que falar.

As próximas edições irão manter o espírito misto de expedição-competição, onde cada um poderá adoptar o ritmo que entender, dentro ou fora da classificação. A Navegação terá de ser mais difícil e valorizada, sendo, no entanto, as provas de trial uma parte importante para a determinação do vencedor absoluto do Raid.

Mas as praias da Costa Atlântica Sul, as planícies do Alentejo, as montanhas e Serras do Centro e Norte do País, a região do Vinho do Porto manter-se-ão os pontos fortes desta que foi a primeira grande prova do Clube Aventura e que reuniu na sua primeira edição um número assinalável de concorrentes vindos de todos os pontos do País, estabelecendo, na altura, um número recorde de participantes em realizações do género em Portugal.

II Raid Portugal 1988 #02

O Rali Maratona de Portalegre

Mas a verdadeira competição em todo-o-terreno aconteceu em Portalegre em Abril de 1987 com a organização da primeira prova tipo “BAJA”, Rallye-Raid ou Rali Maratona, disputada ao cronómetro do princípio ao fim.

À semelhança daquilo que vinha a acontecer noutros países, particularmente nos EUA, na Europa e na África, a fórmula agradou a todos: automóveis de todos os tipos, Jipes, Bugies e Motos de todo-o-terreno.

Para nossa satisfação, apareceram concorrentes de todas as origens: desde as estrelas dos ralis e velocidade, autocross, enduro e motocross até aos meus companheiros dos primeiros tempos de todo-o-terreno em moto, e aos pilotos, navegadores e técnicos do Dakar.

Os Patrocinadores e a Imprensa não deixaram de nos dar o seu apoio e os autarcas e habitantes do distrito de Portalegre não se pouparam a esforços para nos ajudar a levar a cabo o projecto que parecia impossível à primeira vista.

Mas o percurso que o Pedro Vilas Boas e eu tínhamos percorrido desde África, ele em Moçambique e eu em Angola, tinha-nos preparado para conseguir controlar as centenas de pessoas envolvidas. E depois, não nos coibimos com os investimentos, para garantir logo no primeiro ano a credibilidade imprescindível para concorrentes, patrocinadores e Órgãos de Comunicação Social.

Três helicópteros e quase 1000 pessoas na organização, entre elas 20 médicos, 150 Bombeiros e outros tantos guardas da GNR, para além de centenas de entusiastas dos Clubes locais GPAP e SIR de Elvas, controlaram os cerca de 1000 intervenientes na competição, cujo desfecho se deu nos últimos minutos das cerca de 12 horas que demorou a definir a prova. As motos bateram os automóveis e, em ambas as categorias, a competição foi dura. A dureza e a extensão do percurso, a água, a lama e pó, os buracos e a perícia da condução ditaram as classificações finais. A Prova marcou mesmo, atrevo-me a dizê-lo, uma viragem no automobilismo e motociclismo Nacional.

Um grande caminho de evolução fora percorrido desde 1975. Mas pela nossa parte vamos continuar a promover esta modalidade do desporto motorizado de competição, por a considerarmos como a mais compensadora, humana e niveladora de todas as que existem. Qualquer um pode ganhar e, se participar é um prazer, chegar ao fim é, por si só, um feito que satisfaz qualquer pessoa durante um ano ... Ou quase ...

E no fundo, julgo que as provas deste estilo, sem treinos e reconhecimentos, uma constante condução de improviso e resistência nos pisos mais variados repõem a verdade da palavra original “Rallye”! Não será assim?

José Megre

 José Megre #02

“O Todo-o-Terreno em Portugal”, extraído da Introdução ao livro “Aventura 87”, Produção de Clube Aventura / José Megre, Edição Correio da Manhã.

 

Aventura 87

http://www.josemegre.com

20 fevereiro 2009

Emboscada em Marráquexe

15 - Marrakech2006

Marráquexe quer dizer «parte depressa», porque a cidade foi edificada num planalto de emboscadas. Mas aqui os Almorávidas, berberes da Mauritânia, resolveram pôr fim à sua condição de nómadas e fundar a mais bela cidade do deserto. Nove séculos de infalíveis emboscadas se seguiram, com vítimas tão célebres como Roosevelt ou Churchill, Bogart ou Hitchcock.

01 - A Caminho de África 2003 02 - Essaouira2006

John Hopkins fora médico até aos quarenta anos. Vivera e exercera em Plymouth, Inglaterra. Espiava o mar em dias interminavelmente cinzentos, escutava o peito dos doentes, bebia chá a horas certas, olhando pela janela um horizonte de coisa alguma. Nunca se casou, nunca viajou, nunca se cansou. A rotina dos seus dias só foi quebrada com a guerra de 14-18 e um lugar de cirurgião num hospital de campanha nas trincheiras da Flandres. Curou doenças venéreas, queimaduras de frio, orifícios de balas e corpos destroçados por estilhaços de obuses. Tapou com um lençol pudico centenas de cadáveres de jovens sacrificados às mãos de uma política incompreensível e de uma estratégia militar desumana. Acabou a guerra como major do XII Exército e foi mandado para casa - onde quer que isso fosse.

05 - Zagora 1989

03 - Essaouira2006 04 - Ouarzazate2005

06 - Erfoud2003

Porém, fizera um amigo na guerra - um marroquino do Corpo Expedicionário Francês, Ahmed Ben Sahdi, atirador de elite e fiel do chá das cinco na tenda do inglês. Sem nada de verdadeiramente importante ou urgente para fazer, John Hopkins acompanhou o marroquino até Paris, vagueou com ele pelos cais do Sena, sentou-se nos cafés de Montmartre, visitou o Louvre, frequentou durante sete noites consecutivas as portas de Pigalle. Mas Paris não o seduziu e, por isso, continuou a acompanhar Ahmed no seu regresso a casa. Foram de comboio até Marselha, apanharam o barco até Essaouira e desembarcaram numa manhã de Fevereiro, sob um sol quente.

08 - Atlas2003 09 - Atlas 2005

07 - Atlas2003 11 - Atlas2003

John Hopkins viajou com Ahmed até à aldeia deste, na região de Tan-Tan, viveu na sua casa, comeu à mesa com os homens da sua família, viu Ahmed caçar com a mesma destreza com que matava alemães na guerra da Flandres. Juntos, viajaram pelo Sul - Ouarzazate, Zagora, Erfoud -, comprando madeiras e materiais para a oficina de marcenaria do pai de Ahmed.

12 - Camelos2003 13 - Camelos2003

Em Erfoud separaram-se e o inglês continuou sozinho, embarcando num autocarro decrépito que levava ovelhas no tejadilho e que saiu do deserto, atravessou o Atlas e parou à noite numa aldeia onde ele ficou a dormir num posto cameleiro, onde se abrigavam os condutores de camelos em viagem. Aí, juntou-se a uma caravana que transportava sal e entrou em Marráquexe de camelo, no dia seguinte, ao pôr do Sol do dia 4 de Abril de 1919.

16 - Porta Medina2003 18 - Praça Jamaa-El-Fna2003

John Hopkins viveu vinte e dois anos em Marráquexe, sem nunca mais ter regressado à Europa. Comprou um riad no centro da medina, com um pátio com duas oliveiras e uma fonte que corria dia e noite, e um terraço no cimo da casa de onde se avistava toda a cidade e as montanhas do Atlas, ao fundo. Casou-se com uma berbere de dezanove anos, cujo pai vendia tapetes na Praça Jamaa-El-Fna, teve oito filhos, cinco rapazes e três raparigas, todos de olhos azuis e nenhum dos quais falava inglês. Quando ele morreu, a mulher e os filhos compuseram, para ele, um poema em berbere, que mandaram gravar numa tábua de madeira e penduraram na parede por cima do seu quarto. Muitos anos depois, quando me contaram a história de John Hopkins - um só, entre centenas de estrangeiros cativos para sempre em Marráquexe -, consegui visitar o que fora o seu riad e confirmei que a tábua com o poema ainda lá estava. Um amigo marroquino, que falava berbere, traduziu o poema para árabe e de árabe para francês. De francês traduzi para português e, embora tenha consciência do quanto se terá perdido nas sucessivas traduções, esforcei-me por ser fiel ao seu espírito, imaginando-me na pele de um inglês morto em 1941 e lembrado para sempre pelas coisas que amava nesta cidade deslumbrante:

Que pena que já não possas ver mais

as muralhas vermelhas de Marráquexe

e a multidão que ao teu lado caminha

na porta de Essaouira

Que pena que já não vejas

os jacarandás, as roseiras, as buganvílias dos jardins

que já não oiças o som da água nas fontes

que não escutes o silêncio dos pátios

que não vejas as estrelas nos terraços

Que pena que já não possas alisar com a mão

os azulejos do Palácio Bahia

Que pena que já não vejas todas

as coisas que amávamos

que não caminhes, não sintas, não te percas

em Marráquexe - a mais bela das cidades do Sul.

10 - Atlas2005 26 - Pista Aït-Ben-Hadou2003

22 - Aït-Ben-Hadou2003

23 - Aït-Ben-Hadou2003

24 - Aït-Ben-Hadou2003

30 - Vale do Dadès2006

Eu cheguei de carro, ou melhor, de jeep, como convém aos tempos de hoje. Fiz o mesmo caminho que o inglês, só que mais depressa. Vindo do Sul, apanhei a pista que começa em Ait-Ben-Adou e vai sair ao pé da que foi a imponente casbah do sultão de Marráquexe. Atravessámos rios a vau, aldeias adormecidas à hora do calor, subimos pela encosta de uma montanha ao lado de um abismo, esforçando-nos para não o olhar, cruzámo-nos com rebanhos de ovelhas, com burros carregados de lenha de azevinho, com uma miúda que nos atirou um punhado de rosas com um cheiro como nunca sentira antes. Trepámos ao Atlas, que estava coberto de neve no cimo, mas já com o degelo fazendo longas colunas de água escorregar pelos flancos da montanha para formarem cá em baixo os oueds que depois irão desembocar no extenso e fértil oásis do vale do Draa. Descido o Atlas, numa interminável sucessão de ziguezagues, entrámos no planalto que anuncia Marráquexe. Um erro de orientação levou-nos a entrar na cidade pela porta errada, ao cair da noite. De repente, como se tivéssemos mergulhado sem aviso num filme dos anos cinquenta, fomos envolvidos por uma multidão esfuziante de peões, bicicletas, motoretas, carroças, burros, camelos, ovelhas, todo o souk que transbordava de agitação, como sempre sucede ao fim do dia.

49 - Vale do Draa1989 50 - Vale do Draa1989

29 - Vale do Dadès2006 27 - Pista Aït-Ben-Hadou2003

«Cá está outra vez a cidade da alegria» - foi a primeira coisa que pensei. Como é bom voltar a Marráquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em ruas onde se conquista, metro a metro, o espaço disputado aos peões, burros, carroças, motos, bicicletas, carros. Uma corrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem - de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. Metade da cidade está atrás dos balcões das lojas de rés-do-chão e a outra metade circula ao longo delas. Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol se põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins de dia.

48 - Vale do Draa1989 21 - Praça Jamaa-El-Fna2003

20 - Praça Jamaa-El-Fna2003 19 - Praça Jamaa-El-Fna2003

Não tenho pressa, Marráquexe não é para ser vista em ritmo de excursão, com programa de visitas a cumprir. Conheço alguns segredos escondidos no souk, portas altíssimas de pesada madeira de cedro virgem que abrem para palácios inimagináveis onde tudo está na mesma como estaria há duzentos anos, pátios de casas no meio do caos das ruelas onde, em vez do ruído que se espera ouvir das ruas lá de fora, só se escuta o som da água a correr num tanque em cuja superfície flutuam pétalas de rosa. Sei que mais tarde me sentarei num pátio assim, alguém trará um copo de vinho, uma travessa de tagia marrakchi, finas fatias de galinha cozida ao vapor com limão e azeitonas, e depois trarão uma bacia de água para lavar as mãos. Conversarei em francês com o dono da casa, discutindo a influência dos astros nos negócios da vida, porque aqui nasceu a astrologia, e subiremos ao terraço - de todos os terraços se avista a cidade porque as casas são todas da mesma altura - e na noite densa de estrelas procuraremos no céu de Marráquexe o cometa Hall-Bopp que indica o nordeste.

31 - Medina2003 17 - Praça Jamaa-El-Fna2003

De manhã cedo, nos jardins perfumados do Mamounia, vou ler o jornal com o nome mais bonito do mundo - Le Matin du Sahara -, caminharei na alameda das oliveiras em cujos troncos majestosos se enrolam as buganvílias em flor, irei até ao antigo pavilhão de caça conversar com o vendedor de tapetes, «vraiment ton ami», e, como num filme, encostar-me-ei ao banco de trás de uma caleche de pneus de borracha, deslizando sem ruído e sem destino certo pelas ruas da cidade vermelha, embalado pelo som do monólogo do condutor zarolho da caleche com o seu velho cavalo manco. Pararemos na loja de especiarias junto aos Túmulos Saadianos, escolhendo, de entre as centenas de frascos de todas as cores existentes, um chá para as enxaquecas e outro para o mal de vivre judaico-cristão.

36 - Caleche2006 35 - Praça Jamaa-El-Fna2006

Eu, que nunca fumo charutos de manhã, vou acender então um Hemingway Short Stories, em homenagem a esse seu outro contemporâneo anglo-saxónico, Winston Spencer Churchill - um da grande linhagem dos loucos de Marráquexe.

Em plena guerra, em 1943, a Inglaterra e os Estados Unidos tinham de se reunir ao mais alto nível para estabelecer os planos da operação conjunta que levaria ao desembarque na Normandia e à derrota do nazismo. «Onde nos poderemos encontrar?», excluindo a Inglaterra por razões de segurança, perguntou o presidente Roosevelt ao «Premier» Churchill. «Em Marráquexe», foi a resposta de Churchill. O inglês ficou no Mamounia, como habitualmente - era hóspede frequente antes da guerra e continuou a sê-lo depois dela. O americano ficou em casa da sua compatriota Mrs. Taylor, uma herdeira riquíssima que um dia desembarcara no seu iate em Safi e partira para Marráquexe montada num burro, 300 quilómetros de caminho, para comprar um terreno de quatro hectares na parte colonial da cidade e aí construir um dos ex-líbris de Marráquexe: a Villa Taylor. Terminada a cimeira de três dias, F. D. R. regressou a Washington, mas Churchill, apesar da condução da guerra que o reclamava em Londres, deixou-se ficar mais uma semana no Mamounia, a pintar. «Tenho impressão», escreveu F. D. R. ao cônsul americano em Marráquexe, «que, se tivesse também sido dotado para a pintura, teria ficado aí também com Mr. Churchill.»

34 - Praça Jamaa-El-Fna2006

O Mamounia, talvez o hotel mais bonito do mundo, foi a chave da fama internacional de Marráquexe. Construído em 1929 por Henri Prost e Antoine Marchisio, restaurado há uma dúzia de anos, o hotel e os seus fantásticos jardins conheceram sucessivas gerações de beautiful people: pintores, escritores, políticos, actrizes, costureiros, arquitectos. Maurice Chevalier, Edith Piaf, Josephine Baker, Gary Cooper, Humphrey Bogart, Paul Getty, James Stewart, Alfred Hitchcock, Marlene Dietrich, Ingrid Bergman, Chaplin, Orson Welles, Aga Khan, reis, raínhas, príncipes, princesas. You name it. Em plena guerra, Pierre Balmain dava bailes de vestido comprido e champanhe francês para senhoras que tinham atravessado o Atlântico em guerra ou escapado da França de Vichy, e o sultão Pacha Thami Glaoui organizava memoráveis parties de chasse nos contrafortes do Atlas. Veio depois a época das villas - dos Krupp, de Yves Saint-Laurent, de Alain Delon, de Isabelle Adjani e até de Jackie Kennedy, a quem o rei deu uma villa onde ela mal pôs os pés.

32 - Medina2003

40 - Alto Atlas2005

Tudo começara no tempo do Protectorado Francês, sob as instruções de Lyautey, em 1914. Chamado para estudar o urbanismo das cidades imperiais marroquinas - Fez, Casablanca, Rabat, Marráquexe -, Henri Prost concebeu uma solução tipicamente colonial mas que acabaria por se revelar decisiva: separar a população árabe da francesa. Assim, e deixando as medinas tal qual estavam e os marroquinos entregues a si mesmos, ele ocupou-se em desenhar, do lado de fora dos muros das medinas, as «cidades europeias». Avenidas largas e rasgadas, praças desafogadas, uma profusão de árvores por todo o lado, de oliveiras e laranjeiras a buganvílias e jacarandás importados da América do Sul. As ideias de Prost, que seriam depois aplicadas na própria metrópole, acabaram por garantir a preservação do núcleo histórico das cidades imperiais, permitindo ao mesmo tempo o nascimento de cidades modernas e integradas na arquitectura e na paisagem locais, paredes meias com os quarteirões árabes. Mas, se é verdade que foi fora de muralhas e na «zona europeia» que os milionários e as estrelas de cinema construíram as suas sumptuosas e deslumbrantes villas do palmeiral de Marráquexe, não é menos verdade que os verdadeiros amantes da cidade optaram pelos riads, em pleno souk, no coração secular de Marráquexe.

Tudo começara ainda antes, no ano cristão de 1070, o ano 462 da Hégira. Abou Bekr ben Omar e Yousef ben Tachfim, berberes do povo dos Lemtouna Sarihaja, ou Almorávidas - do nome da dinastia que fundariam -, tinham acabado de conquistar aos infiéis a cidade de Sijilmassa, o mais importante entreposto de caravanas entre o Sahel e o Sahara.

28 - Pista Aït-Ben-Hadou2003 43 - Gargantas do Todra2003

Atravessaram o Sousse e o Atlas e chegaram ao grande planalto onde os sheiks das tribos almorávidas e os nobres de Aghmat tinham escolhido fundar uma nova cidade, suficientemente grande para acolher todas as suas tendas, o seu exército e a sua manada de camelos. Foi num dia de Maio, com um horizonte límpido que deixava avistar ainda ao longe as últimas neves dos picos do Atlas, que eles decidiram que «o vale do Nfiss será o seu jardim, as terras de Doukkala o seu celeiro e os guerreiros montanheses do Atlas prestarão aqui vassalagem ao seu chefe». Assim nasceu Marráquexe, nome que provém de uma expressão masmuda que significa «parte depressa», porque a planície era lugar de emboscada certa. Ali e então, este povo berbere, vindo das terras desoladas da Mauritânia, encontrou o seu jardim de Alá e cessou a sua condição de nómada.

46 - Reg Erg Chebbi2003 47 - Yasmina Erg Chebbi2006

Nos séculos que se seguiram, trocando de mãos entre os Almorávidas, os Almóadas, os Saadianos e os Alouitas, até à chegada dos franceses em 1912 e à independência do Reino de Marrocos, em 1956, Marráquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que a sombra do Sol durante o dia ou da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: «Que pena que já não possas ver mais ... a mais bela das cidades do Sul.»

Parte depressa. Vive devagar e parte depressa. Sacode essa pele a que chamamos nostalgia nas ruas desta cidade da alegria. Sacode a poeira do caminho nos banhos do hamman, entre o vapor que escorre das paredes de mármore, à pálida luz do candelabro que torna tudo sensual e fluido, senta-te à roda dos pátios nos restaurantes encantados da medina - o Stylia, o Dar Marjana, o Dar ai Yacout -, come a pastilla, o folhado de pombo com canela, a tagine de poulet, o couscous de borrego, com um vinho de areia suave e perfumado, ouve o som de uma cítara berbere, que parece uma coisa familiar e íntima e todavia é tão diferente de tudo o que já ouvimos.

38 - Palácio Bahia2003 39 - Palácio Bahia2003

E em cada sala do Palácio Bahia, quando passares a mão sobre os azulejos, só para te certificares de que tanta beleza não é irreal, quando vires as ruas carregadas do azul de tucano dos jacarandás, lembra-te então de John Hopkins, «El lnglés», e de todos os outros ingleses, os deslavados ingleses, os infelizes europeus, os nostálgicos dos espaços vazios, dos silêncios, os que ignoram a consistência da água, da areia, das pedras, os que vivem depressa e morrem lentamente.

42 - Dunas Erg Chebbi2003

Se eu mandasse, mandava pôr uma placa em cada uma das entradas da cidade e nelas escreveria: «Marráquexe: vive devagar e parte depressa.» Porque Marráquexe é uma emboscada.

41 - Crepúsculo em Erg Chebbi2006

44 - Nascente em Erg Chebbi2003

45 - Poente em Erg Chebbi2006

(Emboscada em Marráquexe in Sul, Viagens de Miguel Sousa Tavares ©1998, Oficina do Livro, Lisboa, Edição ©2004, 9ª Tiragem: Março, 2007)

(Fotos de JoséManuelBarbosa©1989 ©2003 ©2005 ©2006, anteriormente publicadas em http://erg-chebbi.spaces.live.com e extraídas dos Álbuns: “Marrocos... Aventura & Encantamento (1989)”, “Marrocos... A Expedição (2003)”, “Marrocos... Uma Viagem do Espírito (2005) e “Marrocos... Um dia voltarei...! (2006)”)

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape