25 janeiro 2009

A Tempestade

 

 

A Tempestade #01

Grande tormenta na planura do mar

Que se arroja indómito pela terra adentro.

O vento levanta-se soprando em fúria

E o Inverno selvagem apenas conhece a destruição.

É o vento que vem do mar alteroso,

Lança afiada do Inverno de gelo

Que manda impiedoso no vento e no mar.

 

O mar é bravio e aquilo que faz e torna a fazer

Traz o alarme à nossa gente de muito denodo.

Mas dizei-me se alguém ouviu falar

De coisa mais espantosa e tão temerosa,

Maravilha nunca vista nem achada.

Dizei-me se ouvistes alguma vez contar

Tão tremendo conto como este que agora conto.

 

A Tempestade #02

Quando o vento sopra do Oriente

Ostentam as ondas o seu maior poder

E aguerridas se lançam pelos caminhos do Ocidente

Sem recear colinas e montes, muralhas e gente.

E o vento busca aquele sítio onde o sol se esconde

No perdido horizonte, o fundo sem fundo da imensidão,

A majestade do oceano bravo e selvagem.

 

Quando o vento sopra do lado do Norte

As ondas do mar negras e cruéis e sem piedade

Lutam implacáveis e sem descanso

Contra um outro mundo que está ao Sul,

Contra o apelo e a vastidão

Do firmamento que cobre o mundo, a terra e o mar.

E anseiam ouvir o cisne soltar o seu lamento!

 A Tempestade #03

Quando o vento sopra do Ocidente

Rugindo ao de cima do mar salgado

Do mar rasgado pelo segredo das correntes velozes,

É seu desejo e sua vontade ignorar a terra

E seus castelos para alcançar o Oriente,

Buscar e achar a Árvore do Sol

E consigo a levar pelo mar sem fim.

 

Quando o vento sopra do lado do Sul

Através da terra de Saxões intrépidos

Armados de lanças e poderosos escudos,

As ondas assaltam as ilhas da costa

E vão embater nos promontórios do Norte,

Desfazem-se em espuma contra as falésias

E espraiam um manto cinzento e verde.

 

A Tempestade #04

Apenas se avista a água do mar

E ao longe confundem-se o oceano e o céu.

Um porto de abrigo que acolha o veleiro

É o refúgio e a salvação das vidas em perigo.

Na foz dos rios giram no ar remoinhos de areia

E no alto mar o barco à deriva

Não obedece ao mando do leme.

 

O sono que era de paz e de repouso

Sossego não tem, sofre o assalto do medo e da febre.

E ouve-se o cisne que solta um lamento

De grande aflição na areia da praia

Coberta de bichos que o mar rejeitou,

Monstros marinhos agora sem vida,

Cabelo da mulher de Manannán, Senhor do Mar.  (1)

 A Tempestade #05

As ondas do mar rugido em fúria

Invadiram a foz, subiram os rios

Ao mando do vento, da sua força e seu poder

Que arruína os homens e devasta o campo,

Montes e vales até à Escócia e Ilhas do Norte.

As ondas do mar são a torrente que tudo arrasta,

São a montanha que corre no mar.

 

Oh Filho de Deus, Senhor dos Exércitos,

Olha por mim e afasta o horror

Da Tempestade! Senhor da Justiça e da Alegria,

Nada mais peço senão que te lembres

Deste teu filho e sejas seu escudo e salvação!

Protege-o do vento e mantém-no firme,

Livra-o do Inferno e da Tempestade!

 A Tempestade #06

(1)   Manannán é o deus do mar e das ilhas distantes na mitologia celta-irlandesa.

 

Autor desconhecido irlandês do Século XI in “A Perfeita Harmonia, Poemas Celtas da Natureza”, Tradução de José Domingos Morais, Assírio & Alvim, Edição 0961, 2004, Lisboa.

 

 

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1 comentário:

Emanuel Azevedo disse...

Simplesmente maravilhoso este Blog, os meus parabéns! Um abraço de Angra do Heroísmo.