27 janeiro 2009

O Vento

 

  

O Vento #001

Oh vento do céu que segues as vias da liberdade

E com fragor sopras ao longe tuas rajadas!

Tu és criatura de muitos caprichos e voz poderosa,

Maravilha do mundo sem asas nem pés.

Ninguém adivinha como te abriram as portas do céu

E te enviaram sem rédea nem pés correr o mundo;

E é de espantar como és veloz

A subir ligeiro os alcantis de montes e escarpas.

Não tens precisão de cavalgar corcel fogoso

E cruzas os rios sem barco nem ponte.

Nunca te afogas e és prevenido e bem avisado,

Nada se mete no teu caminho e segues em frente.

Não há exército que trave o teu passo,

Nem sequer a chuva, a maré cheia, a água do rio,

Punhais e lanças ou a pena daquele que escreve as leis.

Não há brigada nem capitão que te faça ouvir voz de prisão

Quando desfolhas, da crista à raiz, as altas árvores.

É vão pensar que haja alguém que te dê a morte

E não te queimam as labaredas do fogo rubro

Nem te arreceias de enganos e manhas.

Não há dois olhos que te possam vêr

Embora te acolhas em antro vazio e sem muralha.

Todos te ouvem e és tu o guia da chuva grossa,

Lesto e veloz como ninguém na natureza.

Espalhas no céu a teu capricho as brancas nuvens,

És maravilha das maravilhas correndo e pulando

Pelos confins da vasta campina desolada e nua.

 

O Vento #002

 

Tu és graça do Deus Senhor a soprar na terra

E és o rugido da sua ira e és aquele

Que derriba a árvore alta e frondosa.

Sossega os anseios e sê prudente

Tu que caminhas por cima das nuvens

E és vagabundo pelo vasto mundo.

Na planura moves, em torvelinhos, a neve no ar

E espalhas sem tino e grande furor as folhas mortas.

Diz-me tu, oh trovador infatigável,

Qual é a senda, oh vento norte!

Tu és arlequim na areia da praia

E são ilusão os jogos da espuma nas ondas do mar.

Tu fazes a música soar nos ares sem flauta nem banjo, tu és feiticeiro que semeia a semente

E fazes voar as flores e as folhas.

Tu és a mola que impele o veleiro no mar bravio

E és o riso que soa altaneiro nas cumeadas.

 

O Vento #003

 

Tu corres e voas pelo mundo inteiro

Com bom ou mau tempo, de noite ou de dia.

Tu sobes os rios que descem a montanha

E correm no vale e és indiferente e soberano.

Tua voz é clara, vibrante e alegre

E eu te suplico que não te demores

E as queixas não ouças de quem me quer mal

E sofre o ciúme. Não te arreceies

E vai ao encontro da minha amiga

Que ansiosa aguarda a liberdade.

Ai de mim, que ela é a dona do meu amor,

A bela mulher branca e dourada com outro casada,

A bela mulher que a paz me roubou.

Não percas tempo, voa veloz e acha o caminho

Do solar que a esconde, a casa do pai que a recolheu.

 

O Vento #004

 

Bate na porta antes que o dia se anuncie

E faz que a abram, a ti oh vento, meu mensageiro.

Busca o caminho que a ela te leve

E se o achares serás a voz do meu lamento.

Diz-lhe que vens do frio do horizonte

De onde lhe trazes estas palavras que eu envio

À minha donzela generosa e bela:

“Por muito que eu viva neste pobre mundo

Eu sempre hei-de ser o seu enlevo e leal servidor”.

Eu serei desgraçado se não mais eu vir

A minha amada, a minha amiga a quem sou fiel.

Vai e voa no alto do céu e tu hás-de-a vêr;

Vai e voa ao rés da terra e hás-de-a achar.

Vai e encontra a bela donzela pálida e loira;

Toma-lhe a mão e mostra o caminho da minha casa.

 

Tu és, oh Vento, o protegido, o ente mais querido do alto Céu!

 

 

O Vento #005

  

Dafydd ap Gwilym, galês do Século XIV, in “A Perfeita Harmonia, Poemas Celtas da Natureza”, Tradução de José Domingos Morais, Assírio & Alvim, Edição 0961, 2004, Lisboa.

  

  

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1 comentário:

Emanuel Azevedo disse...

LINDAS FOTOS, LINDAS PALAVRAS, PARABÉNS E UM ABRAÇO DE ANGRA DO HEROÍSMO.