15 janeiro 2009

O Frio

 

 

O Frio (Ainda mais claros... os dias! #073)

Fria, fria e gelada é esta noite

no imenso campo.

 

Mais alta a neve que o monte ao longe

no horizonte.

 

Como pode a corça achar a erva

neste deserto?

 

Oh frio eterno! A tormenta estala

por todo o lado.

 

No declive, onde há um sulco

jorra a torrente.

 

No rio o vau ontem seguro

agora é pântano.

E o vasto lago de águas serenas

um mar revolto.

 

Lagoas e pântanos, arroios e ribeiros

parecem lagos.

 

Não há veado, boi ou cavalo que possa cruzar

o rio a vau.

 

Nem mesmo aquele assim como eu

que tem dois pés.

O Frio (Ainda mais claros... os dias! #089) 

Peixes da Irlanda nadam ao acaso

o rumo perderam.

As ondas do mar quebram-se em fúria

de encontro à rocha.

 

Pela terra fora nada se vê, não se vislumbra

vila ou aldeia.

 

Não se ouve o guizo do gado a pastar

e o grou não grita.

 

No bosque o lobo não tem repouso

no seu covil.

 

A carriça tímida perdeu a voz

e não esvoaça.

 

Não acha um ramo, um bom abrigo

para o seu ninho.

 

O vento é frio e corta a pele

como navalhas.

 

Pobres das aves que sofrem o vento

e o gelo frio!

 

No bosque o melro de negras plumas

busca um abrigo.

O Frio (Ainda mais claros... os dias! #114) 

 

E nada acha, voa sem tino de ramo em ramo,

é tudo vão.

 

É um conforto um caldeirão de ferro preto

a chiar ao lume.

 

Porém o melro luzidio e negro

não tem descanso.

 

No bosque as árvores estão atoladas

na neve branca.

 

Não há maneira de subir ao cume

de uma colina.

 

A águia escura, altaneira e nobre

- paira no vale.

 

Trava um combate de parca glória

com o vento agreste.

 

E no seu bico adunco e forte pende um cristal

de gelo frio.

 

É grande a miséria e o sofrimento

da águia altiva.

 

Não sejas louco, escuta o que digo

e toma cautela.

 O Frio (Ainda mais claros... os dias! #115)

Não ponhas de lado as tuas mantas e não te ergas

do leito de penas.

 

Ouve-me e crê! O mundo lá fora

é feito de gelo.

 

Eis a razão por que eu proclamo:

Assim é o frio!

 

 

Autor desconhecido irlandês do Século XI in “A Perfeita Harmonia, Poemas Celtas da Natureza”, Tradução de José Domingos Morais, Assírio & Alvim, Edição 0961, 2004, Lisboa.

 

 

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