01 março 2008

O meu deserto... onde a magia é real!




Existem lugares na Terra que, por qualquer razão, exercem sobre nós um fascínio inexplicável, nos prendem, inexoravelmente, para sempre.
Pela sua beleza, originalidade ou imponência, acontece algumas vezes na nossa vida sentirmos o seu chamamento, o seu apelo até ele.
Esse lugar de que falo, existe. Sobretudo, para mim…!


Ainda imaculado, Erg Chebbi , é um lugar mágico.
Tão pequeno que nos cabe no coração. Tão imenso que nos esmaga! Tão intenso que nos apaixona…!
Cadeia de dunas, cuja elevação maior, de 150 metros – a Grande Duna – , no centro de uma região desértica, porta de acesso ao Sahara, situada no Grande Sul de Marrocos, junto à fronteira com a Argélia.
Ergue-se do deserto pleno de aridez, de pedras negras, enchendo-se de água, formando lagos no Inverno. Em Agosto o calor é tórrido e sufocante. Tempestades de areia frequentes, ainda assim… um lugar adorável!


O fascínio pelos desertos surgiu do nada, na adolescência, sem explicação, sem sentido, ou… nem tanto!
Para se lá chegar, o caminho transforma-se numa espécie de peregrinação, em que nos vamos despojando do supérfluo, em crescendo, numa espécie de ascese contínua. Libertação interior em que nossa vida vai sendo desmontada, percorrida mentalmente, como se de um filme se tratasse.
Até chegarmos lá…


Um êxtase nos invade em sussurro. Sem apelo nem remissão, nos possui. Lugar agreste, de extrema beleza, solitária e infinita.


Suas areias cor-de-pimenta, ao entardecer, finíssimas como pó-de-talco.
O céu mais poderoso de todos, infinitamente estrelado! Claramente visíveis as nebulosas, o mais imponente que alguma vez vi! Sucessivas “estrelas cadentes” riscando este oceano celeste imenso…!
Tocante… de ir às lágrimas!


E a quietude… a plenitude avassaladora, razão pela qual tudo o mais deixa de ser importante.
Apenas o estarmos ali…


Sentados na areia fofa, no vértice da duna, olhando estarrecidos o horizonte, de onde nos chega - da vizinha Merzouga - o som sincopado e hipnótico dos tambores.
É como se entrássemos num transe profundo, escutando esse som arrepiante, tocado por descendentes de antigos escravos negros - a música gnawa - , de Khemliya.


Sente-se no ar o cheiro dos palmeirais e dos campos cultivados, subterraneamente irrigados, segundo as ancestrais técnicas árabes de rega.
Experimentamos a pureza, aquele despojamento essencial, uma intimidade sem precedentes… 


Oportunidade para o nosso reencontro, confessando nossos pecados, assumindo nossas fraquezas, nossos erros, reconciliando-nos com a nossa alma.
E ficamos mais fortes!


No dorso de um dromedário, de olhos azuis celestes, percorrendo a Grande Duna, num sensual ondular, vamos escutando o silêncio profundo, deixando que nossos pensamentos fluam até que o sol se ponha.
Sentindo como que um imenso orgasmo, estonteante, pleno…!


Antes que hordas de turistas, ávidos de sensações fortes, o invadam e o transformem - o transtornem - , é neste pequeno recanto do mundo, a sul do meu desejo e da minha vida, longe das canseiras quotidianas, da preocupação com os filhos, que me reencontro com a Vida.
Com essa, afinal, que, por momentos, deixei para trás.


É assim… neste recanto do Sahara… neste meu pequenino deserto onde me perco…


… Onde me reencontro…!










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