10 julho 2008

Sul... Sudoeste

"Nem sempre viajei para sul, mas nada vi de tão extraordinário como o sul. O Sul é uma porta de avião que se abre e um cheiro inebriante a verde que nos suga, o calor, a humidade colada à pele, os risos das pessoas, o ruído, a confusão de um terminal de bagagens, um excesso de tudo que nos engole e arrasta como uma vaga gigantesca. Apetece fechar os olhos, quebrar os gestos e deixar-se ir."
(Do prefácio de Miguel Sousa Tavares no seu livro "Sul, Viagens" )




Fascínio pelo Sul!
Da terra. Das coisas. Das gentes.
Caminhos de aventura e sensualidade.
Da descoberta e da irrefutabilidade dos momentos...
Da correnteza da nossa irracionalidade...

Dos encontros e desencontros da vida.
A magnitude dos sentidos
... a caminho do Sul...

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A propósito - ou nem tanto - do meu álbum de fotografias "Parque Natural do Sudoeste Alentejano", um poema do meu primeiríssimo Grande Poeta:



Rente à Fala (excerto)

(…)

Esta terra de sol esta terra ainda
é bem ela esta terra inocente
este corpo há que deixá-lo ser água
não é fácil separá-lo da luz
quase nua esta terra agora minha.

Nós éramos como já disse e não vou recomeçar
a bem dizer outra vez o riso das crianças.

Inventar a cor primeiro das laranjas
depois o sol escorrendo dos lábios
só depois o trevo só depois a neve.

Um dia te direi como é de vidro
a casa onde o rasto do verão
no silêncio perde o nome a cal
o mar a liberdade de vaga em vaga
há um galo que canta sem razão.

Hão-de passar as cabras o outono
sobre as falésias noutras dunas
entre os juncos os olhos do pastor hão-de passar
em profusão as aves quase de vidro
não ser senão esta luz molhada a caminho de sesimbra
inclinada como quem escuta
em ruínas o verão as areias –
assim nos lábios morrem sílaba a sílaba
o branco dos muros as aves marinhas.

Há um bosque casualmente nesta mão
há um homem neste poema e envelhece.

(…)

Com as cegonhas a voarem para o sul
estava agora mais perto das nascentes
já nem dos choupos brancos me lembrava
nem das torres acesas do outono
mas sabia que me aproximava do meu nome.

Com as águas aprende-se a dormir –
agora no outono descem devagar
sobre a sombra a memória das colinas
os leves trilhos a luz extraviada
a relva os garotos que se despem rindo
inumeráveis no verão de outros dias
os girassóis a caminho de casa.

Agora que regresso à evidência da cal
dai-me um pouco de água para a festa do sol sobre os lábios.

(…)

Amanhã saberei em que regaço
as palavras se dispõem a dormir.

(…)


(Eugénio de Andrade in “Limiar dos Pássaros”, Limiar Editora, Porto, 1978, 2ª Edição)

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