05 abril 2008

Os Estados do Desassossego I

I

De tempos em tempos
Passam por vezes anos
Encontramos pessoas especiais
Fruto da oportunidade ou apenas circunstância

Partimos então à aventura da descoberta
Sendo o tempo a ensinar-nos que
Esperamos o inesperado
Buscamos o inatingível

Tantas vezes é a ilusão

Não investimos em relações em que não acreditamos
Rejeitamos aquelas em que acreditamos
Tantas vezes acreditamos nas relações em que não investimos

É aqui que tantas vezes me apetece ser a criança
Na pureza dos gestos mais insignificantes

Tantos anos passaram desde que encontrei essa criança
Que me transtornou
E desassossegou
Profundamente

E eu quis

Daquela relação insegura o conflito interior
Surgiu implacável

Mas fui feliz

Naquela época em que os dias passavam devagar
Nos sentávamos no mesmo banco sujo daquele jardim
Em silêncio escutando o rumor das palavras por dizer
Adivinhava-se um salto no escuro
Questionava minha vida inteira num pedaço de tarde

Em nossas mãos
Os gestos eram lentos e eternos
Obscuros em que me perdia
E me reencontrei
Sentia que valia todos os sacrifícios deste
E de outro mundo

Apertava-se-me a cintura com aquele doce olhar frio
De quem sabe bem o que quer

E eu perdido em
Lugares adquiridos e vida estável

O que me oferecia era a doce tortura de tudo questionar
De reinventar
A vida
Estendia-me com aquele olhar as mãos de infinito

E apostei

Ganhei

perdi

Corri vezes sem fim nos limites do
Razoável
Procurei a intranquilidade
Insensato
Busquei a insegurança que nos desperta a alma
E nos faz sentir vivos
Desafiando preconceitos e
As convenções
Despertando os sentidos

Naquele tempo fui criança
Brincando
Embriagando-me
Do cheiro do desconhecido
De tudo o que havia para descobrir

E era tudo o que havia

Redescobrir
O olhar das mãos assim dadas
O sabor de seus olhos
Em que a tranquilidade do seu sorriso
Estremecia

Tantos anos passaram de tanta vida desperdiçada
Imóvel e aceite sem contestação
Sem reverso
Desde que fui feliz

E fui criança

Hoje voltei a sentir aquele incontornável perfume do conflito
quando me acendeste o primeiro cigarro junto bebemos do mesmo copo partilhando da mesma maçã
senti no toque subtil de teus dedos contra os meus as mãos cheia do prazer
em que ambos nos perderíamos
e procurávamos na satisfação do toque leve imperceptível
em que ambos nos envolvíamos


Hoje voltei a ser poeta
quando falavas da nostalgia que já pendia

nostalgia
secretamente partilhada por ambos sentida
e tu não sabias o que iriam provocar essas simples palavras
solidariedade absoluta dos sentidos

não sabes que houve um tempo em que fui feliz assim na secreta contemplação do outro

não sabes o quanto me perturbas com a tua vida cheia da mesma-coisa-sempre como a minha
sem invenção
sem loucura
sem os corpos desnudos
o sol beijando-lhes o espírito e tu não sabes
nem nunca o saberias se to não dissesse agora

que te adoro
no sorriso com que me beijas
na atenção que de mãos cheias me ofereces

não o sabes se to não dissesse
do nó que sinto quando me olhas e no imediato momento me foges
de timidez talvez

não o sabes e nunca o saberias se to não dissesse
dos arrepios do teu perfume quando me tocas no braço

se te falo da minha loucura
é porque sei que nunca virás a descobrir se to não disser

parecer-te-á desconexo meu discurso apenas o resultado
as marcas
que em mim vais sem o saber depositando

demasiado permeável
sugo todos os teus gestos
na profunda convicção
de que nada sabes se to não disser



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