30 abril 2008

Ainda...



Cresce na boca a saliva
De dias outros antigos
Dispersos.

Como lágrimas escorriam abundantes e claros
Sem que o soubéssemos.

Eram os lábios o que buscávamos
Os beijos que não chegaram a acontecer
E brincávamos pendurados nas palavras vãs
Que nada diziam ou
Apenas tudo queriam dizer…

Mas não! E sempre assim…
As mãos que demoravam na corrida
E nós, seres pacientes
Aguardávamos o momento que nunca deixávamos acontecer.

Falo de um passado porque agora apenas restam as fontes
De onde antes brotavam as tais lágrimas ou dias
Em que nos acocorávamos
E falávamos de tudo menos de nós.
Ou sempre de nós?!

Apenas os lugares onde os gestos deveriam ter acontecido
E as palavras ditas.

Tudo tem um tempo
E nós contra ele habitámos os lugares
Ou o atraiçoámos?!

Não sei a resposta…
Tu sabes?

(Descansa em paz, Laura!)

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29 abril 2008

Palavras mortas


" O que importa é escutar o silêncio das palavras por dizer "




Morrem as palavras
Ficam as nebulosas e as inúmeras estrelas no céu.
(Não mais se apagam da memória).

Lá no alto as galáxias
Evoluem e se expandem para longe do meu horizonte.

De olhar no firmamento
Apesar do "Caminho de Santiago"
Sinto o desfalecimento em mim
Perante a imensidão daquilo a que me atenho.

Trago comigo o (des)amor e a angústia.
Fica a contemplação
E a esperança
De um momento vivido
Apenas…


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20 abril 2008

O Rochedo



Colhi-te no fim de uma tarde de Outono
Perdido num campo de girassóis lá no fundo
No sul do Alentejo
Junto à costa
Onde a espuma do mar me enche de névoa
Afastando de mim o sobressalto
Dos dias sombrios…

Esculpo-te na rocha
As tuas feições
Sentado na areia
(movediça, outrora)
Invento-te um rosto
Serenamente
Com as palmas das minhas mãos
Vazias
Na penumbra dos meus dedos
Teço e desfaço o que a natureza em bruto erigiu…

Moldo-te com esta brisa de entardecer
No silêncio das águas
No porvir da noite serena e tranquila
Em que navegarei…

Construo o teu rosto esculpindo na pedra
Da minha essência
Desfazendo em ternura
Com as mãos já calejadas
Vazias
E plenas…

O que te ofereço, genuíno
Sou apenas eu
O amor tranquilo
A paixão absurda
Os dias claros
E as noites…

E admiro-te assim nessa quietude incerta
Nas páginas escrita
Esculpida no rochedo
Coberta pela espuma das águas
Dos dias
De mim…



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17 abril 2008

A Janela




Desta minha janela
entrecortada de bruma
o sol se espraia
sobre os frutos verdes
ainda verdes do pensamento.

(E eis que uma ave me sai da garganta...!)


Esta ténue candura
rasgada de aurora
vai-e-vem rebuscado do vento
brisa húmida e marítima
me toca as extremidades
e penetra nas entranhas.


Sinto este ar
de aroma bravio
nascido da luz do pensamento
... o sonho acordado.


Ainda lento me levanto
e caio
em mim me levanto deste
sofrimento.
Descomedido sofrer
de quem ama.
Por amar alguém que ama
não a mim
Amor…


Já outro te possui
e eu choro lágrimas de cal branca
como a bruma
da janela
incandescente…

(No silêncio da tarde a espera é mais surda)


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16 abril 2008

Apenas o meu corpo...!


Por sobre o meu corpo
Esquecido e nu
Escorrem memórias antigas
De um certo passado…


Já não dói a lembrança de te ver
Por entre meus dedos
Os lábios acariciando
Esquecidos…


Neste pequeno corpo reescrevo
Páginas de memórias
Num desejo mudo
De ainda não te ter…


Assalta-me essa ânsia secreta
Do teu cheiro
Da tua língua percorrendo
Este pequenino inerte pedaço de mim…


Da magia dos corpos entrelaçados
Do encanto do teu sorriso
Da penumbra da tua voz
Sinto a húmida tremura
Do meu querer
Do meu incontrolável desejo
E não poder…


Ainda não é tarde…!

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11 abril 2008

Os Estados do Desassossego VII... e basta!

VII... e basta!





Sinto os poemas fugirem-me por entre os cabelos

Que imagino entrelaçar

Por entre os dedos





Dito de outra forma:





Por entre meus dedos fogem pensamentos e poemas que te dedico





Ou de outra:





Por entre meus dedos foge-me o que sinto e

Sem to dizer

Apenas ficam as palavras esculpidas de

vinte e seis de junho de dois mil e um



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Os Estados do Desassossego VI

VI


Não passa já uma hora
Que não pense em ti


De repente sinto-me refém
Emudecido de esperas longas


Longas esperas de tão breves
Como se te conhecesse há milhões de anos


Conheci-te ainda agora
E assim mesmo te amo tão quieta...!


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Os Estados do Desassossego V

V


Da tua sombra apenas fica ténue
O recorte
Do que passou sem nunca já ter existido


Ainda agora
Já não existes nesse lugar


Apenas a sombra


E sigo-te
Ao virar da esquina
Como quem passa
Imperceptível
E altivo


Existes na sombra que deixas
Dos meus dias
Tristes


Da penumbra perscruto teus segredos por dizer
Quando passas por entre as esquinas da minha espera


E sem to dizer
Amo-te assim deslizante e fugidia
Como és


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10 abril 2008

Os Estados do Desassossego IV

IV


Pressinto tão-só a névoa de tua ausência


O olhar terno e mudo
Que por entre esquinas trocamos
E se esvanece


Enlouquecido


Na penumbra de uma tarde imensa
Imaginamos às tantas
Debruçados um sobre o outro
Sem que nada aconteça
Neste porvir sem história


Apenas imaginamos nossos dedos entrelaçados


Esquivos
Esperando o amanhecer
Procurando incessantes segredos do outro


Dói já a tua ausência
E tua presença magoa
Aquela mágoa que tantas vezes
Sem darmos conta
Sentimos

De nada podermos fazer
Ou dizer


Apenas o olhar terno
Esmorecido e inquieto
O teu
E mudo
Que por entre esquinas trocamos



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Os Estados do Desassossego III

III



Sinto a nostalgia
Do futuro


Quando inalo esse aroma
A terra
Húmido


De gaivotas pairando tranquilas
Ignorando a tempestade


Que lá longe
Se abate


No limiar do horizonte


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07 abril 2008

Os Estados do Desassossego II

II

Sinto-me triste e moribundo
Partilhando contigo estas palavras e apenas essas

A tua ausência dá-me náuseas

(Já não sinto teu cheiro!)

Não suspeitas do que sinto
Do quanto eu sinto pela tua ausência
Talvez assim seja melhor
Apesar de que aquele tempo de outrora terá voltado
E terei
Finalmente
Acordado

Definitivamente a inquietude perturbante

Imaginar estrelas à luz do meio-dia
Desfrutar das noites longas das pistas de dança
Da magia das noites por concluir
Em nossas mentes

Amo-te assim na distância que magoa
Pressentindo em ti muito do que imaginara outrora
Sem que pudesses - tenho a certeza - suspeitar

Nossas vidas um dia se cruzarão

Inconsequente o amor
Que nos enlouquece
Desfrutaremos nossas vidas
Amor inconsequente
E pleno
De alegria farta
De vida
Faltando em mim

Sinto-me morrer um pouco cada dia
Todos os dias
Sem que tenha vivido o que para mim
Imaginei
Pressinto em ti a vida que nunca vivi
Ou se vivi

Foi já
há muito tempo

No tempo em que éramos crianças

E era feliz

Criaste em mim
Sem o saberes
A doce e a suprema confusão
Atraíste-me quando para ti olhei e vi

Aquela criança
Em mim esquecida
E descobri o que sabia já existir

Por magia
Surges em minha vida
De repente e sem aviso

De repente
No meu olhar infinito
Olhei e vi

Aquela criança
Amanhecer


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05 abril 2008

Os Estados do Desassossego I

I

De tempos em tempos
Passam por vezes anos
Encontramos pessoas especiais
Fruto da oportunidade ou apenas circunstância

Partimos então à aventura da descoberta
Sendo o tempo a ensinar-nos que
Esperamos o inesperado
Buscamos o inatingível

Tantas vezes é a ilusão

Não investimos em relações em que não acreditamos
Rejeitamos aquelas em que acreditamos
Tantas vezes acreditamos nas relações em que não investimos

É aqui que tantas vezes me apetece ser a criança
Na pureza dos gestos mais insignificantes

Tantos anos passaram desde que encontrei essa criança
Que me transtornou
E desassossegou
Profundamente

E eu quis

Daquela relação insegura o conflito interior
Surgiu implacável

Mas fui feliz

Naquela época em que os dias passavam devagar
Nos sentávamos no mesmo banco sujo daquele jardim
Em silêncio escutando o rumor das palavras por dizer
Adivinhava-se um salto no escuro
Questionava minha vida inteira num pedaço de tarde

Em nossas mãos
Os gestos eram lentos e eternos
Obscuros em que me perdia
E me reencontrei
Sentia que valia todos os sacrifícios deste
E de outro mundo

Apertava-se-me a cintura com aquele doce olhar frio
De quem sabe bem o que quer

E eu perdido em
Lugares adquiridos e vida estável

O que me oferecia era a doce tortura de tudo questionar
De reinventar
A vida
Estendia-me com aquele olhar as mãos de infinito

E apostei

Ganhei

perdi

Corri vezes sem fim nos limites do
Razoável
Procurei a intranquilidade
Insensato
Busquei a insegurança que nos desperta a alma
E nos faz sentir vivos
Desafiando preconceitos e
As convenções
Despertando os sentidos

Naquele tempo fui criança
Brincando
Embriagando-me
Do cheiro do desconhecido
De tudo o que havia para descobrir

E era tudo o que havia

Redescobrir
O olhar das mãos assim dadas
O sabor de seus olhos
Em que a tranquilidade do seu sorriso
Estremecia

Tantos anos passaram de tanta vida desperdiçada
Imóvel e aceite sem contestação
Sem reverso
Desde que fui feliz

E fui criança

Hoje voltei a sentir aquele incontornável perfume do conflito
quando me acendeste o primeiro cigarro junto bebemos do mesmo copo partilhando da mesma maçã
senti no toque subtil de teus dedos contra os meus as mãos cheia do prazer
em que ambos nos perderíamos
e procurávamos na satisfação do toque leve imperceptível
em que ambos nos envolvíamos


Hoje voltei a ser poeta
quando falavas da nostalgia que já pendia

nostalgia
secretamente partilhada por ambos sentida
e tu não sabias o que iriam provocar essas simples palavras
solidariedade absoluta dos sentidos

não sabes que houve um tempo em que fui feliz assim na secreta contemplação do outro

não sabes o quanto me perturbas com a tua vida cheia da mesma-coisa-sempre como a minha
sem invenção
sem loucura
sem os corpos desnudos
o sol beijando-lhes o espírito e tu não sabes
nem nunca o saberias se to não dissesse agora

que te adoro
no sorriso com que me beijas
na atenção que de mãos cheias me ofereces

não o sabes se to não dissesse
do nó que sinto quando me olhas e no imediato momento me foges
de timidez talvez

não o sabes e nunca o saberias se to não dissesse
dos arrepios do teu perfume quando me tocas no braço

se te falo da minha loucura
é porque sei que nunca virás a descobrir se to não disser

parecer-te-á desconexo meu discurso apenas o resultado
as marcas
que em mim vais sem o saber depositando

demasiado permeável
sugo todos os teus gestos
na profunda convicção
de que nada sabes se to não disser



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02 abril 2008

Terna é a noite...!






Revejo-te na penumbra de uma madrugada
De janela entreaberta… e mal te vejo!


Apenas te pressinto no calor de um afecto
Feito desejo acocorado


Junto ao teu corpo chegam pássaros
Poisando em teus ombros


Do cabelo emaranhado
O cheiro de um segredo tranquilo
Que se desfazendo em carícias
Todavia
Insuficientes


Mostro-te como é lindo o amanhecer


Revejo-te assim quieta
Como uma lua serenamente despontada
Enquanto meu corpo
De sobressalto
Se debruça sobre o teu
Quase adormecido


Meu desejo
Apenas
Será teu


Quero que esta noite tranquila se desfaça de névoa
Nos teus seios que ternamente
Me ofereces


Percorro-te suave… suavemente
Num crescente de emoção contida
Consentida


Através da tua pele macia
Respiro
E me desfaço em mil bocadinhos de prazer inusitado


Quero-te assim quieta e
Nua
De alma
E corpo
Avassalador e poderoso
Em que me reencontro
Na agonia dum pranto imenso


Intenso
Desço por ti
No calor da tua espera


Eterna é a noite…


Da tua boca soltam-se rouxinóis
Do colo que me seduz
Avidez crescente


Mordo-te entre a língua e um novo desejo


Deste meu pobre corpo adormecido
Navegam barcos
Em suspiros de mais outra noite…


Eterna é a noite


Em que me debruçando sobre ti
Nessa quietude


Chamo-te silêncio
E tu vens…
(Vens…?)


Adoro tua voz sussurrada em meu peito
Desfeito
Teu desejo feito expressão
Em que me embalo
E embarco
Numa onda crescente


E terna é a noite…!



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